Estudo revelado hoje Portugueses não morrem por ninguém
Bárbara Wong
Os portugueses estão mais individualistas, não
morreriam por nada, nem por ninguém, senão pela sua
própria família.
No entanto, quase 80 por cento constatam que "a
sociedade está a perder valores importantes", revela
o inquérito Dez Anos de Valores em Portugal, hoje
apresentado no seminário A urgência de educar para
os valores, na Universidade Católica Portuguesa, em
Lisboa.
"Este inquérito permite perceber o que é que
mobiliza as pessoas e a partir daqui desenvolver um
quadro de competências para a educação", explica
Lourenço Xavier de Carvalho, investigador
responsável pela análise dos dados (ver caixa).
Em 1999, o inquérito da Universidade Católica
Portuguesa foi feito a 2975 pessoas,
presencialmente; dez anos depois foi realizado por
telefone e responderam 937 pessoas, dos 15 aos 65 ou
mais anos de idade. Mais de metade dos inquiridos
são do sexo feminino (57 por cento). O número de
licenciados aumentou de dez para 26 por cento, ao
passo que os com menos de quatro anos de
escolaridade caíram de 13 para seis por cento.
Se fosse há dez anos, para oito em cada dez pessoas
fazia sentido morrer para salvar a vida de alguém.
Hoje, apenas 46 por cento respondem que morreriam
nessas circunstâncias.
Se, por um lado, estão mais individualistas, por
outro mostram ter menos preconceitos e ser mais
tolerantes. Por exemplo, à pergunta "Se pudesse
escolher, aceitava ser vizinho de...", quase a
totalidade responde que não se importaria de viver
ao lado de pessoas de raças diferentes, de
imigrantes ou de indivíduos de outra religião.
Também revelam uma maior tolerância relativamente a
vizinhos com sida ou homossexuais.
Apesar de a maioria dos inquiridos ser casada pela
Igreja - 56,2 por cento (mais sete do que em 1999),
2,2 por cento vivem em união de facto e 6,5 por
cento são divorciados -, o número dos que concordam
totalmente que "o casamento está ultrapassado" sobe
de 15 para 36 por cento. Para os portugueses, o
casal prevalece ao casamento, já que 80 por cento
respondem que "uma criança precisa de um pai e de
uma mãe para crescer feliz".
"Cada qual cuide de si"
Para Lourenço Xavier de Carvalho é a noção de
individualismo na sociedade e não o egoísmo que faz
os portugueses responderem que concordam em parte ou
totalmente que "cada qual cuide de si". Em 1999,
mais de metade concordava, mas este ano o número
subiu para 63 por cento. A expressão "olho por olho,
dente por dente" mobiliza mais de metade - eram 36
por cento em 1999.
"É possível que o contexto social de individualismo
e a importância da família conduzam a uma falta de
solidariedade para além das fronteiras do núcleo
familiar", interpreta.
Sobre as questões de sexualidade, os portugueses
mudaram muito pouco e os valores variam apenas um a
dois pontos percentuais. Quando se lhes pergunta se
concordam que se faça nudismo nas praias ou se veja
filmes pornográficos, são evasivos e dizem que não
acham "nem bem, nem mal". No entanto, reprovam que
se pratique relações sexuais com vários parceiros ou
relações extraconjugais: sete em cada dez inquiridos
acham "mal".
Ter uma família sólida, amar e ser amado, ser um
profissional competente, ser honrado e ter amigos
leais são os principais objectivos. Ser famoso e
rico são das suas últimas prioridades. Nas tomadas
de decisões, o que mais os influencia é a
consciência e a família. A Bíblia e os líderes
religiosos pesam mais do que a ciência ou a
comunicação social. O inquérito tem um grau de
confiança de 95 por cento e 2,75 de margem de erro.