Economia e educação: pode o Governo estar contra
a nação? Santana Castilho
Dos 28 subscritores do documento em análise, 13
foram ministros e alguns estiveram no Governo na
última década
Um grupo de cidadãos conhecidos e envolvidos na
actividade económica veio a público dizer "que o
interesse nacional impõe uma reavaliação profunda
das prioridades de investimento público na economia
portuguesa" e sustentou o apelo à paragem para
reflexão, afirmando: "Tendo os grandes investimentos
públicos significativas implicações no nível de vida
dos portugueses durante as próximas gerações, é
imperativo que exista um largo debate e um largo
consenso nacional antes das decisões políticas e
antes de estes investimentos avançarem." Na primeira
das quatro prioridades que o grupo advogou figura,
naturalmente, "a melhoria da qualidade do sistema
educativo e de formação técnico-profissional".
O estado da economia e das finanças do país, que o
documento glosa, permite estabelecer curiosas
analogias e convergências com o estado da educação.
Avanço algumas:
1. Um apelo como o que os economistas fizeram
poderia ser iniciativa de educadores e vir,
provavelmente, subscrito por Roberto Carneiro,
Marçal Grilo ou David Justino, para não citar outros
anteriores ministros da Educação. Mutatis mutandis,
o que se diz da economia poderia ser dito da
educação, já que ninguém contesta que muitas das
decisões tomadas no sistema de ensino terão
significativas implicações no nível de vida dos
portugueses durante as próximas gerações. Mas
subsiste a pergunta legítima: por que está, tantas
vezes, o Governo contra a nação? Ou, dito doutro
modo, por que razão as mesmas pessoas, quando estão
no governo, não fazem o que, logo que de lá saem,
dizem ser imperioso e, arrisco sem procuração, colhe
significativa aprovação dos portugueses? Reparem que
dos 28 subscritores do documento em análise, 13 são
anteriores ministros (dos quais oito das Finanças e
dois da Economia) e alguns tiveram responsabilidades
governativas na última década, aquela em que, diz o
apelo, "a economia portuguesa teve o pior desempenho
relativo dos últimos oitenta anos". A resposta é
comum à economia e à educação, porque é de índole
política: enquanto no governo, pensam na reeleição;
fora dele, dão-se conta de que há uma nação e
gerações futuras.
2. A história da gestão do sistema de ensino é a
história da incoerência e da falta de visão
estratégica. Os diagnósticos correctos, que não nos
faltam, são sistematicamente pulverizados pela
imprevidência e irresponsabilidade de um aparelho
ideológico que há três décadas domina o Ministério
da Educação e transforma ministros em marionetas. Na
economia não encontraremos o mesmo tronco comum
ideológico. Mas lá está idêntica incoerência e
menosprezo cíclico por algumas medidas correctas,
tomadas aqui e ali. Assim se explica a alternância
sem sentido entre os gastos à tripa-forra e os
violentos apertar de cinto, que imolam cada vez mais
pobres para que os ricos saiam das crises mais
ricos. Neste Governo, tão dado a estatísticas, um
relevante indicador de performance económica seria
saber quantos pobres foram necessários para gerar
cada novo rico.
3. Na economia e na educação, fala-se hoje de crise.
Porque a nossa memória é curta. Porque a nossa
atenção ao passado é negligente. Uma análise fina às
séries estatísticas disponíveis (mais abundantes e
remotas, é certo, para a economia do que para a
educação) patenteia erros e persistência atávica
nesses erros. Sem receio de desmentido, afirmo que
tanto na economia como na educação há muito que
vivemos em crise, ainda que a dissimulação
demagógica de governos pouco escrupulosos a tenha
escondido, com êxito, de períodos em períodos, a uma
população pouco esclarecida e demasiado tolerante e
crédula. O que é novo neste acumular de ciclos
críticos é a expressão mais grave que cada crise
assume, esmagando-nos com evidências que as manobras
de baixa política não logram já escamotear.
Evidências de tal monta que tornam imperiosa a
mudança de rumo, na economia como na educação.
Evidências de tal gravidade que não permitirão mais
aos que se seguirem que falhem sem responsabilidade.
Porque o que está em jogo não é mais um lance de
simples troca de papéis. É a nossa sobrevivência
como sociedade autónoma.
4. Na economia, como na educação, os problemas que
se colocam são políticos. Num e noutro campo foi a
má gestão política que nos trouxe para onde estamos.
Só a alteração das políticas, portanto, pode
resolver esses problemas. Mas nos limites para que
nos empurraram, só obteremos resultados se lograrmos
granjear um grande consenso político e social para
as soluções, que não serão cómodas. Para isso temos
de discutir, debater, mobilizar sindicatos,
organizações cívicas, académicos e comunicação
social e exigir que governo e oposição se envolvam,
finalmente de forma civilizada, trocando a chicana
política e a retórica agressiva e inconsequente por
urbanidade, argumentos e soluções. Todos teremos que
identificar os problemas e aceitar as soluções,
garantindo por pacto que não as denunciaremos ao
virar da esquina. Precisamos falar verdade, por
dolorosa que a verdade seja. Na educação é verdade
que não se adquire conhecimento sem esforço e sem
disciplina. Na economia é verdade que não podemos
gastar mais do que produzimos.
Na economia, como na educação, o trabalho que a
nação espera já não será para nós, mas para as
gerações futuras. O nosso tempo de fruir foi gasto
nos 35 anos que passaram. Professor do ensino
superior