As eleições europeias de dia 7 não podem ser
extrapoladas para as legislativas. Se pudessem, a
pulverização do espectro partidário faria de
Portugal um país ingovernável. A soma dos dois
partidos centrais, PS e PSD, foi inferior a 60%, o
que só aconteceu uma vez desde 1974, em 1985, no
momentâneo surto do PRD. Há 20 anos que esse valor
anda acima dos 70%. Nas últimas europeias foi de
81%, e de 79% nas legislativas de 2005. Desta vez
ficou pelos 58%. Além disso nenhum dos dois grandes
conseguiria maioria absoluta com qualquer dos
pequenos.
Outros sinais das eleições apontam no mesmo sentido.
Os 5,3% de voto inútil em partidos sem representação
parlamentar foram elevados mas normais para eleições
europeias. Mas os votos em branco, claramente de
contestação, tiveram neste escrutínio o maior peso
de sempre, 4,6%, quase duplicando o máximo anterior.
A culpa não é da crise internacional. Ela tem as
costas largas mas, apesar de grave, a recessão é
externa e passará. Muito mais séria é a nossa crise
profunda, aquela em que estamos há 10 anos e para
onde retornaremos em breve. O problema é estrutural,
e, embora evidente, ninguém parece ter força para o
admitir, quanto mais enfrentar.
Este velho bloqueio pode ser chamado "a ilusão de
Guterres", mas constitui uma versão actualizada de
antigas tragédias nacionais. O país após 1995
endividou-se no estrangeiro para alimentar
clientelas instaladas em serviços estatais.
Subsídios, funcionários, pensões, professores,
médicos, organismos e obras públicas são a carga que
paralisa o progresso. D. Maria II, D. Luís e D.
Carlos reconheceriam os sintomas. Como o liberalismo
soube, uma vez criada, a bola de neve orçamental não
é fácil de travar.
Este monstro financeiro já fez fugir dois
primeiros-ministros desde 2002 e continua tão
intratável como antes. O Governo de Sócrates, apesar
de maioritário, não tem quase nada para mostrar em
troca do descontentamento que gerou. As meras
beliscaduras que fez a esses interesses valeram-lhe
as maiores contestações na rua e no voto. Mas as
tímidas reformas não chegaram de facto a afectar o
ritmo de endividamento nacional. Os bloqueios ao
desenvolvimento estão hoje tão fortes como eram há
quatro anos. As europeias não podem ser extrapoladas
para as legislativas. Por isso, o sinal de
ingovernabilidade, mais que na eleição pulverizada,
está na legislatura desperdiçada.
Por sua vez, PSD e CDS, que enfrentaram o mesmo
monstro sem sucesso na legislatura anterior, têm
pouca credibilidade na oposição. Será que daí virá
afrontamento aos poderes instalados?
O principal sinal da ingovernabilidade é, porém, a
subida da extrema-esquerda. Ela não tem o
significado ideológico que tantos lhe concedem. É
preciso entender que CDU e Bloco de Esquerda não são
partidos de proletários, mas de funcionários. A sua
acção dirige-se à defesa intransigente de regalias
públicas. Os slogans com sabor estatista pretendem
não uma mítica sociedade sem classes mas assegurar
empregos e benesses aos que dependem dos cofres do
Estado. Entretanto fazem prodígios de retórica para
esconder, por vezes de si próprios, que servem
interesses declaradamente burgueses.
A conclusão é que o País parece ingovernável. Os
debates dos próximos meses podem confirmar esta
realidade. Haverá propostas e discussões, muitas
promessas e vitórias, mas sem que se denuncie o
problema que realmente entope o País: os direitos
adquiridos. O mais deprimente será constatar a
semelhança desses confrontos com os que se
desenrolavam no fim da monarquia.
A política anda parecida com os abismos da
regeneração. A diferença está na economia e
sociedade, que hoje são de-senvolvidas e dinâmicas.
Assim, apesar de esmagador, o peso das clientelas
públicas acaba inferior ao que foi em eras passadas.
Num mundo globalizado, não só é mais difícil manter
privilégios injustificáveis, mas a evolução
económica tende a marginalizar essas despesas. É nos
cidadãos, empresas e mercados, não numa fraca
liderança política, que está a nossa única
esperança.