A denúncia partiu do director do serviço de
obstetrícia do Hospital de Guimarães, José Furtado:
a interrupção voluntária da gravidez está a ser
usada como método contraceptivo.
O médico diz à Renascença que, em menos de um ano,
já foram realizadas 190 interrupções voluntárias de
gravidez (IVG) no hospital.
Em 30% dos casos, as mulheres não voltam para a
consulta de revisão, o que para José Furtado é prova
do facilitismo criado, havendo mesmo situações de
interrupções sucessivas.
Estes casos, mesmo pontuais, revelam uma atitude
negligente das mulheres que recorrem à interrupção
voluntária da gravidez.
Para José Furtado, é um dado preocupante que revela
também falhas do Estado: “Acho que não é numa
sociedade responsável, esta, onde se penaliza tudo o
que é negligente, e que não se é capaz prevenir
estas situações. As instâncias de saúde não são
capazes de sensibilizar as mulheres para a
contracepção e não arranjam mecanismos paralelos
para facilitar uma contracepção adequada”.
Apesar das cerca de 13 mil interrupções voluntárias
da gravidez já realizadas serem inferiores às 20 mil
estimadas pelo Governo, José Furtado considera o
número preocupante.
Bastonário tinha alertado
Confrontado com esta denúncia, o bastonário da Ordem
dos Médicos diz não estar surpreendido, lembrando
que alertou para este risco, durante a campanha do
Referendo.
Pedro Nunes diz ser um risco transformar o aborto
num método contraceptivo, cabendo ao Governo a
responsabilidade de acautelar o problema.
O bastonário rejeita a possibilidade dos médicos
virem a ser responsabilizados pela situação porque
não foram os médicos a criar o problema.
Falência de uma cultura cívica
O antigo ministro da Saúde Paulo Mendo diz que
estamos perante a falência de uma cultura cívica,
defendendo a necessidade de se insistir na tentativa
de dissuasão do aborto.
O antigo Ministro lamenta, por outro lado, que não
se tenha apostado, em Portugal, em campanhas sérias
de planeamento familiar.
Outras reacções
O coordenador nacional do Programa de Saúde
Reprodutiva, Jorge Branco, admite a existência de
casos pontuais de repetição de abortos, mas sublinha
que a lei não estabelece limites ao número de
interrupções de gravidez.
Já para o responsável pela Comissão Nacional da
Pastoral da Saúde, Padre Vítor Feytor Pinto, esta
realidade coloca-nos perante uma manifestação da
irresponsabilidade com que se está a fazer cumprir a
lei.
A Renascença tentou obter um comentário da actual
ministra da Saúde a esta denúncia do director do
serviço de obstetrícia do Hospital de Guimarães, mas
Ana Jorge não se mostrou disponível para o efeito.