Público, 19 Jun 03

Heroína do Aborto nos EUA Quer Proibição da Prática
Por PEDRO RIBEIRO, Nova Iorque
 

A mulher que esteve na base de uma decisão jurídica que tornou o aborto legal nos Estados Unidos meteu um processo em tribunal pedindo que essa decisão seja revogada. Em 1973, Norma McCorvey era a queixosa (identificada pelo pseudónimo Jane Roe) num processo que chegou ao Supremo Tribunal dos EUA; o caso "Roe vs. Wade" estabeleceu o direito ao aborto nos EUA. Mas agora McCorvey, que há uma década se tornou numa activista antiaborto, considera haver novas provas científicas para anular a decisão de "Roe vs. Wade".

Norma McCorvey tinha 21 anos quando ficou grávida pela terceira vez. Tentou obter licença para abortar, mas isso era ilegal no estado do Texas, onde ela vivia. Em 1973, McCorvey interpôs um processo para revogar a lei contra o aborto. O caso "Roe vs. Wade" chegou ao Supremo Tribunal, que decidiu tornar o aborto legal nos EUA. Nessa altura o filho de McCorvey já tinha nascido - como aos outros dois, ela deu-o para adopção.

Em 1980, McCorvey revelou publicamente que ela era a "Jane Roe" do caso de 1973. Uma década mais tarde, juntou-se aos movimentos "pro-life" que combatem pela abolição do direito ao aborto. Agora McCorvey quer anular o resultado do processo que a fez famosa, argumentando que "o aborto faz mal às mulheres" e que o Supremo Tribunal em 1973 "baseou a sua decisão em falsidades".

Na conferência de imprensa em que anunciou o seu novo processo, McCorvey pediu desculpas pelo seu papel em "Roe vs. Wade" e disse: "Vamos conseguir os nossos bebés de volta." McCorvey foi acompanhada na conferência de imprensa por 60 mulheres, algumas das quais com cartazes onde se lia: "Arrependo-me do meu aborto."

O advogado de McCorvey, Allen Parker Jr., disse ser inédito que o queixoso de um caso que fez jurisprudência pedisse a anulação do seu processo. Parker mostrou-se confiante de que os tribunais irão dar razão a McCorvey. A presidente da organização "pro-choice" Planned Parenthood, Gloria Feldt, disse, contudo, à Reuters: "Não esperamos que os tribunais levem [o novo processo interposto por McCorvey] a sério, porque a decisão [de 1973, do Supremo Tribunal] foi a correcta."

WB00789_1.gif (161 bytes)