Público - 14 Jun 03

"Partilhamos Tão Pouco a Nossa Riqueza"

David Roodman, um dos investigadores do Center for Global Development responsáveis pelo Índex do Empenho no Desenvolvimento, confessa também ter ficado surpreendido com o resultado de Portugal. "Não teria previsto que ficasse em terceiro lugar", diz, numa conversa telefónica com o PÚBLICO a partir de Washington.

Mas explica que não é difícil, num estudo deste tipo, um pequeno país ter um bom lugar, porque "o que é valorizado não é o impacto das políticas, mas o esforço". A política de um pequeno país pode ter um pequeno impacto, mas isso não retira valor ao esforço relativo que esse país está a fazer.

Não recebeu ainda nenhuma reacção vinda de Portugal, mas recebeu de outros países. "Os que ficaram mais desiludidos foram a Noruega e o Japão", conta Roodman. Os japoneses eram até muito recentemente o maior dador de ajuda do mundo, mas foram penalizados por receberem muito do dinheiro de volta em juros de empréstimos, e por terem um mau resultado na categoria das políticas de imigração.

"Os noruegueses ficaram muito aborrecidos por verem o seu país no meio da tabela, e, sobretudo, por terem ficado abaixo da Dinamarca", explica o investigador. Perante os resultados, a reacção inicial de alguns países foi pôr em causa os critérios utilizados. O Japão, por exemplo, "achava que deveria ser beneficiado pela sua contenção a nível militar", enquanto os Estados Unidos, pelo contrário, "pensavam que devíamos valorizar a sua
iniciativa de intervenção militar".

Roodman acredita, no entanto, que passada esta reacção inicial, os países comecem a analisar o estudo e "a longo prazo venham a fazer reformas concretas". "Sobretudo a Noruega e o Japão", sublinha.

Mas os próprios autores do estudo também estão a fazer uma auto-crítica e pensam introduzir alterações nos critérios. Roodman explica que os dados mais fiáveis, "porque se trata de questões estudadas de forma profunda e durante décadas", são os relativos à ajuda externa e ao comércio. Outras categorias, como a imigração, foram mais difíceis. "Não temos, e por isso não incluímos, dados sobre os imigrantes ilegais", afirma. "Também não temos forma de distinguir o tipo de imigrantes, saber os que têm qualificações e os que não têm, e esta é uma questão importante porque tem implicações diferentes para o país de origem".

A questão dos critérios levanta ainda outras dúvidas: pode-se dar o mesmo peso ao investimento e à ajuda directa? Não terá esta um carácter mais intencional do que aquele? "É verdade que o que queremos é medir políticas", diz Roodman. "Mas penso que, no caso português, por exemplo, os investimentos são em grande parte resultado de uma política governamental, e a maioria são feitos por empresas estatais".

Roodman insiste em duas ideias base deste trabalho: "nenhum país, nem o que ficou em primeiro, deve ficar satisfeito com o nível de ajuda que dá aos mais pobres"; e "as sete maiores economias do mundo ficaram todas na última metade da tabela". Reconhece que o seu país, os EUA, deu um grande passo em frente com a iniciativa do Millennium Challenge Account e os fundos destinados ao combate à sida, anunciados na última cimeira do G7, mas acha ainda muito pouco. "Isso faz passar os EUA do valor de 0.8 no critério da ajuda para 1.2, e não altera a sua posição na tabela", sublinha. "Somos um país tão rico e partilhamos tão pouco a nossa riqueza".

A.P.C.

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