|
Jornal de Notícias - 18 Jun 03
Recurso à emigração sobe por parte dos licenciados
Estatísticas Saídas para o estrangeiro aumentaram 33% em 2002, num total de 27
mil emigrantes Congelamento de vagas na Administração Pública pode ser uma das
causas
MÉRCIA GONÇALVES / LUSA
Ivete Carneiro
Portugal pode estar a perder gente qualificada, a acreditar nos últimos números
do Instituto Nacional de Estatística (INE): aumentou o número de indivíduos com
Ensino Secundário e Superior completo que abandonam o país permanentemente. Uma
situação que poderá ser atribuída ao congelamento de entradas na administração
pública, até agora uma válvula de escape para muitos recém-licenciados. Apesar
de representarem uma minoria das 27.358 pessoas que emigraram em 2002, as
titulares de diploma Secundário (1497) ou Superior (1585) foram mais do que em
2001 e, ao contrário do que acontecia, encontram-se sobretudo entre as que optam
pela emigração permanente (superior a um ano). Emigração jovem Humberto Moreira,
responsável, no INE, pelas estatísticas dos movimentos migratórios, atribui esse
aumento à pronunciada dificuldade do emprego jovem em Portugal. Trata-se de
recém-licenciados que, não encontrando colocação por cá, optam pelo estrangeiro,
quer para trabalhar, quer para aumentar o prestígio com pós-graduações em
universidades de renome internacional. A constatação vem reforçada com os dados
da emigração por idade, que revelam mais saídas até aos 29 anos. Uma
mudança a que, segundo o especialista, não estará alheia a nova política de
emprego na administração Pública. "Era uma das saídas, pelo menos temporárias,
para recém-licenciados. Com o congelamento das admissões", falham oportunidades.
Humberto Moreira completa o raciocínio com dados da congénere espanhola do INE:
"É crescente o número de portugueses a fixar residência permanente em Espanha,
nomeadamente em termos de universitários".
Ora a Espanha, precisamente, passou em 2002 a ser o terceiro destino da
emigração portuguesa, com 10,7% das saídas. Em 2001, surgia apenas em sexto
lugar. A França (21,8%) e a Suíça (30,3%) continuam a liderar as preferências,
mas destinos como a Alemanha e o Luxemburgo desapareceram das listas. Em
contrapartida, com 4% das saídas, o Brasil volta a ganhar destaque, juntamente
com o Canadá (3,8%). De acordo com o especialista do INE, os números da
emigração acabam por acompanhar sempre os do desemprego. E a tendência deste
para subir reflectiu-se no aumento de 33% da emigração (27 mil contra 20.500 em
2001), acompanhada pelo "decréscimo da imigração", sobretudo de Leste. A questão
do desemprego, é sabido, é mais flagrante nas zonas urbanas. Ora, é justamente
do Norte e da região de Lisboa e Vale do Tejo que deixam permanentemente o país.
A emigração permanente, por seu lado, foi aquela que, embora sendo de menor
expressão de há dez anos a esta parte (32,2% do total no ano passado), mais
subiu em 2002, registando um aumento de 53%.

|