Público - 22 Jun 03

Cirurgia Intra-uterina Chega a Portugal
Por MARGARIDA GOMES
 

A Ordem dos Médicos reconheceu recentemente a sub-especialidade em Medicina Materno-Fetal e abriu a possibilidade de, finalmente, em Portugal se poderem fazer intervenções cirúrgicas intra-uterinas a fetos no período pré-natal. Este e outros temas estarão em discussão durante o II Congresso Mundial de Medicina Fetal, que se inicia amanhã, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, reunindo até sexta-feira mais de meia centena de reputados especialistas nesta área específica.

Em declarações ao PÚBLICO, Nuno Montenegro, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, director do serviço de Obstetrícia do Hospital de S. João e membro da comissão para a sub-especialidade de medicina materno-fetal do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, destacou a importância deste congresso, declarando que "nos próximos 30 anos, não teremos oportunidade de reunir em Portugal outros 50 especialistas em medicina fetal de todo o mundo, da Europa aos Estados Unidos da América".

Aquele especialista manifestou o seu agrado por, a curto prazo, Portugal poder contar com "uma realidade que é uma área diferenciada da especialidade da obstectrícia e ginecologia, a medicina materno-fetal, que foi finalmente reconhecida pela Ordem dos Médicos como uma sub-especialidade médica". Brevemente, "teremos um regulamento e no próximo ano iniciaremos a formação de especialistas em medicina materno-fetal no nosso país", acrescentou, precisando que esse trabalho está a ser preparado pela comissão, presidida pelo professor catedrático Luís Mendes Graça, responsável pelo serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital de Santa Maria.

Nuno Montenegro considera fundamental que Portugal forme rapidamente clínicos nesta nova sub-especialidade e define o seu âmbito da seguinte forma: "Estamos a falar, dentro da Obstetrícia, de uma área mais restrita que tem a ver com a diferenciação neste sector da medicina, que visa detectar as doenças no feto. Toda a informação que nós tínhamos, durante anos, sobre o estado de saúde do feto era através da mãe, de modo indirecto. Mas com a evolução tecnológica, nomeadamente com a ecografia em tempo real, tudo isto se foi revolucionando, porque passamos a ter acesso à imagem do feto, a poder medi-lo, a poder estimar o peso, a poder conhecer o seu comportamento, mesmo dentro do útero. Agora é possível fazer estudos vasculares e conhecer o fluxo sanguíneo da placenta, do útero, do feto, do coração, no fundo, passamos a poder fazer o estudo funcional e anatómico do feto".

O responsável pela Obstetrícia do Hospital de S. João referiu-se ainda aos últimos avanços desta área, realçando que "nos últimos anos, também nalguns centros onde a medicina está mais evoluída, já se faz a intervenção in-útero, terapêutica e mesmo cirúrgica", uma realidade que acontecerá, seguramente, dentro de algum tempo em Portugal.

A semana em que decorrerá o II Congresso Mundial de Medicina Fetal vai abordar temas tão complexos e actuais como a intervenção intra-uterina, transfusões sanguíneas in-útero, transplante de medula, a gravidez de alto risco, a fetoscopia laser e parto pré-termo - até hoje não se conseguiu, nem mesmo nos países mais desenvolvidos, diminuir a taxa de prematuridade, situada entre os 7 e os 10 por cento. No encontro, organizado pela Fundação de Medicina Fetal, serão ainda abordadas outras áreas como a pesquisa de células fetais no sangue, cirurgia fetal in-útero de espinha bífida, aplicações do laser, transplantes de células, biopsia da placenta e ressonância magnética do feto.

Insert

A semana em que decorrerá o II Congresso Mundial de Medicina Fetal vai abordar temas tão complexos e actuais como a intervenção intra-uterina, transfusões sanguíneas in-útero, transplante de medula, a gravidez de alto risco, a fetoscopia laser e parto pré-termo.

WB00789_1.gif (161 bytes)