Diário de Notícias - 25 Jun 03

Atitude
Francisco Sarsfield Cabral  

Há 21 anos, o primeiro-ministro francês Mauroy prometia baixar para os 60 anos a idade da reforma. Hoje, o governo francês tenta prolongar o ano em que se podem reformar os funcionários públicos (batalha parecida, mas num país pobre, trava Lula no Brasil). O que mudou? Basicamente, a demografia e o crescimento económico. Como nascem poucos bébés e a medicina permite viver até mais tarde, a população envelhece e cada vez há menos trabalhadores no activo para financiarem as pensões dos reformados. E o ritmo do crescimento económico é, hoje, muito inferior ao dos «trinta gloriosos» anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial.

E mudou também a atitude das pessoas. O Estado-providência, que deveria ajudar os realmente pobres, passou a ser visto pela classe média como uma irreversível conquista sua, o que o torna financeiramente ainda mais inviável. As «regalias» fazem agora parte dos direitos considerados adquiridos por muitas pessoas que possuem carro, casa, electrodomésticos, etc. E que já não estão dispostas a certos trabalhos. Comparem-se os portugueses que há 40 anos emigravam para trabalhar na construção civil em França com os imigrantes que hoje são a maioria dos trabalhadores das obras em Portugal.

Na Alemanha, Schroeder tenta, finalmente, flexibilizar as leis de trabalho _ a estagnação da economia alemã impunha-o. Mas nem o governo francês nem o alemão venceram ainda estes difíceis combates, embora o prognóstico lhes seja nesta altura favorável. Em 1995, o então primeiro-ministro da França, Juppé, caiu ao tentar impor reformas como estas. Se o fracasso se repetisse, ficaria comprometido o crescimento económico europeu, agora ainda mais necessário com uma população envelhecida.

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