Política na China Um filho, uma fortuna Francisca Gorjão Henriques
"Nunca tinha visto um ocidental tão de perto",
afirmou Wang Zhong Nian para explicar porque o filho
está tão assustado. Há todo um quadro social a
traçar à volta das reacções de Wang Zhe: "As
famílias estão a ficar muito isoladas. As crianças
são filhos únicos e não estão habituadas a estar com
outras pessoas. O comportamento do meu filho é um
exemplo disso."
Wang Zhong Nian critica a política imposta pelo
regime em 1979 para deter a explosão demográfica.
"Se a família pode sustentar dois filhos, que tenha
os dois filhos. É melhor para o crescimento mental
das crianças. Esta política é extrema." E o
resultado é que "o filho é um rei em casa,
totalmente controlador e mimado pelos avós. Nunca
deixa a mãe falar com outras pessoas mesmo lá em
casa, começa a gritar."
Os observadores apontam para outros problemas: é
sobre eles que recaem todas as expectativas e todos
os sonhos que os pais nunca puderam realizar. É por
isso que o investimento na educação dos filhos é uma
das grandes prioridades. Investe-se em escolas
privadas, em explicações, aulas de dança e música e
inglês... As crianças começam a ter horários tão
sobrecarregados como os pais.
Não é só o excesso de atenções que acaba por cair
nos ombros dos filhos únicos. O confucionismo
constitui ainda o pilar das relações sociais e faz
dos filhos o grande apoio na velhice dos pais. Num
país onde não há reformas e os seguros são ainda
pouco frequentes, um único filho terá de tomar conta
de dois, às vezes quatro (com os avós) idosos.
Fang Su nunca pensava no facto de não ter irmãos.
"Nenhum dos meus amigos tinha." Conta como se
contornava a questão: "Havia a moda de chamar irmã à
melhor amiga da escola, ou às colegas mais próximas.
Era uma forma de criar um laço." Tem apenas 24 anos,
ainda não se casou, e por isso a ideia de ter filhos
faz parte de um projecto a longo prazo. Quer dois ou
três, "dependendo da situação financeira, se tiver
uma casa grande com espaço para eles brincarem e
dinheiro para não ter que trabalhar o tempo todo".
O dinheiro faz sempre parte da equação: "Os filhos
são muito caros na China. Há estimativas dos custos
desde que nascem até irem para a universidade: 300
mil yuans." Ou seja, 28 mil euros. "Comigo gastaram
mais porque fui para o Canadá estudar. Os chineses
investem muito na educação dos filhos porque acham
que essa é a chave para o seu futuro." Su teve
sorte, porque os seus pais puderem vender um dos
três apartamentos que tinham. Fez uma pós-graduação
em Comunicação em Vancouver e o seu inglês é agora
perfeito.
Diz que os pais não a estragaram com mimos, mas
lembra-se do dia em que fez 13 anos e o pai lhe deu
uma ordem: "Abre aquela mala." Estava carregadinha
de presentes. Mas sente a pressão: "Vai aumentando à
medida que vou crescendo. Terei de ser eu a tratar
de dois funerais sozinha. O meu pai já disse que
comprará a sua própria campa." E remata: "Dizem que
somos uma geração de meninos egoístas, mas não há
país onde os jovens se preocupem tanto com o futuro
dos pais."