Quando estava a fazer o estágio de advocacia assisti
uma vez em tribunal a um diálogo memorável entre uma
juíza e um jovem delinquente que vinha acusado de um
furto e pelo qual tinha sido condenado com pena
suspensa. Aquele diálogo foi um teste perfeito para
o que eu pensava da natureza humana e para o que
hoje penso sobre os limites da acção política.
Com particular compaixão, a juíza questionou o rapaz
se ele achava "bem" o que tinha feito. Ele respondeu
que "sim", que "achava bem". A juíza perguntou-lhe
depois se ele tencionava "repetir" a experiência ou
"corrigir-se". O rapaz disse que não ia corrigir
nada. A seguir, após um palavroso discurso sobre o
"bem" e o "mal" a juíza fez uma última pergunta: "O
senhor entende alguma coisa do que acabei de dizer?"
A resposta do rapaz: "Não!"
Durante os últimos 200 anos, muitos dos desacordos
políticos têm sido sobre como interpretar o tipo de
discurso autodestrutivo e anti-social deste rapaz. A
posição dominante, para a qual contribuiu o mito do
"bom selvagem" de Jean-Jacques Rousseau, acabou por
ser a crença na bondade da natureza humana. Esta
crença diz-nos que os seres humanos nascem puros e
impolutos e é a sociedade que os degenera.
A bondade da natureza humana, aliada à intrínseca
corrupção da sociedade, produziu os movimentos
revolucionários e progressistas que todos
conhecemos. A ideia básica é a de que se agirmos com
as medidas "certas" de melhoramento social
conseguiremos alterar a forma como as pessoas
actuam. O positivismo educativo e o romantismo do
século XIX vêm daqui. Os heróis da literatura
romântica eram espíritos nobres traídos pela
brutalidade das instituições sociais. Como na novela
"Michael Kolhaas" do romântico alemão Kleist acerca
de um comerciante de cavalos que se transforma num
assassino para reagir a uma sociedade que afrontou
os seus direitos, esta cultura enfatizava a rebelião
"justa" e o regresso universal ao "estado de
natureza".
E, no entanto, a nossa época tem demonstrado que
Darwin tinha mais razão do que Comte ou Rousseau. As
pessoas não se tornam necessariamente melhores ou
piores por causa do factor X ou Y. A nossa estrutura
biológica e psicossocial já faz de nós seres
agressivos e competitivos. E a velha asserção que
ciclicamente reaparece de que se actuarmos
directamente sobre a pobreza os comportamentos
anti-sociais desaparecem pode ser tão verdadeira
como falsa.
Há aqui uma importante moral política a reter.
Devemos pensar na política não como a aplicação
mecânica de planos sobre a natureza humana mas como
um processo de criação e transmissão de normas
sociais. Não estaremos todos de acordo sobre o
conteúdo dessas normas, mas este é o melhor caminho
para uma sociedade mais segura e coesa.