E o vento mudou, mas tudo fica na mesma Nuno Garoupa
Não é preciso andar nos meandros do governo para
perceber que o vento político mudou. Basta ler os
artigos de opinião e os blogs dos apoiantes do
governo, basta ouvir as intervenções dos vários
ministros e dos apparatchiks socialistas, basta
prestar atenção ao primeiro ministro. O tom e o
discurso agora são outros.
Fala-se menos das grandes reformas estruturais e dos
resultados potentes que as estatísticas oficiais
adivinhavam. Agora, trata-se de responder a quem
critica, insultar quem discorda, fazer pouco de quem
não elogia o governo. Insiste-se na falta de
projecto do PSD e na demagogia da oposição à
esquerda do PS. Digamos que, dantes, cada
intervenção de um guru socialista era 80% a falar da
obra que estava a ser construída pelo grande líder e
20% a criticar os outros, agora, é 80% a insultar e
a atacar a oposição, a SEDES e tudo o que mexe e
apenas 20% a defender uma obra, que infelizmente
para todos não produz resultados.
Sem resultados (ou com resultados supostamente
adiados para a próxima legislatura), ficou
complicado só falar da obra. Muitos portugueses são
como São Tomé, querem ver para crer. Poucos
acreditam a pedido do primeiro-ministro. E como o
governo não pode mostrar resultados consistentes e
sólidos, por mais malabarismo que tentem com os
números, teve que mudar de discurso. Claro está, a
crise internacional é a mãe de todos os problemas.
Contudo, ainda não ouvi um apoiante do governo
explicar como é que a crise internacional explica a
continuação da nossa divergência real depois de
todas as grandes reformas (supostamente o problema
interno está solucionado). Confundem
propositadamente a desaceleração da taxa de
crescimento (isso sim, potencialmente consequência
da conjuntura internacional em que estamos) com a
manutenção dessa taxa abaixo da média europeia e
mesmo da espanhola (prova evidente de que as
reformas não tiveram os resultados que o governo
prometeu e de que o objectivo anunciado pelo governo
em 2005, de retomar a convergência real, fracassou
rotundamente).
E, contudo, parece-me que o governo tem razão nos
argumentos que vai apresentando para pedir a
renovação da sua maioria absoluta. No fundo, o que
se fez neste mandato é o melhor que se pode fazer,
dada a conjuntura económica e social, dado o que
quer e não quer a esmagadora maioria dos eleitores,
dada a disponibilidade e a capacidade inovadora das
elites que temos. É o reformismo possível, com os
resultados possíveis. E o PSD, com ou sem CDS, não
faria melhor. Não o fez em 2002-2005, quando teve a
oportunidade política. As propostas alternativas que
vai apresentando e as caras da oposição que vai
mostrando provam que nada mudou desde então,
deixando a legítima dúvida sobre o que seria
diferente agora.
O verdadeiro problema não é do PS, mas dos
portugueses. As reformas do governo foram o melhor
possível por quem melhor as podia fazer. Mas são
insuficientes, sem resultados, adiada que está a
retoma da convergência real para 2014 (naquilo que
para mim é o cenário optimista da OCDE, já que me
inclino mais para a previsão de Henrique Medina
Carreira de que seremos o país mais pobre da UE27 em
2020, previsão que foi gozada de forma arrogante e
deselegante pelos mesmos que nos diziam no final dos
anos 90 que hoje estaríamos entre os mais ricos e
desenvolvidos da união). E soluções milagrosas
vindas de Belém são uma mera ilusão que seguramente
o actual Presidente da República não vai poder
satisfazer. A melhor previsão para a próxima
legislatura é que vai ser mais do mesmo, em bloco
central, versão maxi (PS-PSD), ou em versão mini (PS-CDS).
Para quem acompanha o que se passa em Portugal desde
fora, resta constatar a paciência dos portugueses.
Dez anos a falar de crise, vinte anos de promessas
jamais cumpridas, sempre os mesmos a dizer que agora
é que vai ser, dezenas de ministros e secretários de
Estado que descobrem as receitas milagrosas depois
de sair do governo. E, surpreendentemente, nada
muda. Entre PS e PSD, a vida continuará, com mais
das mesmas receitas. E com outros quatro anos a
falar do empobrecimento relativo de Portugal.