Em 2002, quando os portugueses pela primeira vez
tomaram consciência da entrada em crise da economia
portuguesa, poucos imaginavam que, passados sete
anos, a situação de austeridade ainda se faria
sentir.
Mas, ontem, o Banco de Portugal não deixou margem
para dúvidas. Inflação elevada, aumentos moderados
dos salários, evolução negativa do mercado do
trabalho e aumento da pressão exercida pelo
endividamento serão fenómenos dominantes em 2008 e
2009. Este ano e o próximo serão para as famílias e
as empresas portuguesas de forte aperto orçamental,
sentindo-se, em alguns aspectos, restrições ainda
mais graves do que aquelas que já foram vividas nos
anos mais recentes: inflação elevada, aumentos
moderados dos salários, evolução negativa do mercado
do emprego e aumento da pressão exercida pelo
endividamento.
Em primeiro lugar, o rendimento disponível (aquilo
com que as pessoas ficam depois de acrescentar ao
seu rendimento as prestações sociais recebidas do
Estado e retirados os impostos) vai apresentar, este
ano, um crescimento real "mais moderado", uma
consequência directa da subida forte da taxa de
inflação, que não é acompanhada por uma melhoria
correspondente das condições salariais. É por isso
que o consumo das famílias vai crescer menos este
ano do que em 2007.
Para 2009, o aperto ainda será pior. O rendimento
disponível real continuará a apresentar um valor
moderado e os portugueses, cada vez mais
pressionados pelo pagamento das prestações do seus
empréstimos, vão ser mesmo obrigados a poupar. O
consumo crescerá apenas 0,7 por cento, o cenário
mais negativo desde 2003.
Do lado do emprego, o cenário também não é dado a
optimismos. O Banco de Portugal não faz previsões
para a evolução da taxa de desemprego, mas deixa a
entender que uma nova subida é possível já a partir
de 2009. Pelo menos é o que demonstram as
estimativas para a taxa de crescimento do emprego.
Depois de um crescimento de 0,7 por cento este ano,
antecipa-se um abrandamento para 0,4 por cento, o
que, diz o Banco de Portugal, é "uma evolução mais
consentânea com a projecção para o crescimento da
actividade".
Do lado das empresas, o cenário também não é nada
tranquilizante. Com o consumo doméstico e a procura
proveniente do exterior a abrandarem prevêem-se dois
anos de dificuldades para equilibrar as contas. Um
problema que se agrava, se se tiver em conta que o
pagamento de juros pelos empréstimos assumidos
deverá aumentar e o novo recurso ao crédito poderá
ficar ainda mais difícil. É por isso que, depois de
uma recuperação no ano passado, o investimento volta
a abrandar já durante o presente ano.