A Greenpeace e o consumo de peixe pelos
portugueses António Schiappa Cabral
Desafio a Greenpeace a expor os seus pontos de vista
nos Conselhos Consultivos Regionais de Pesca da UE
Foi recentemente notícia uma acção de protesto da
Greenpeace numa grande superfície, contestando, com
o habitual recurso a técnicas exuberantes de alarme,
o consumo de alguns peixes pelos portugueses. Não
comento o folclore da iniciativa, pois cada um
decide as encenações a que dá corpo. Lamento, sim, a
falta de rigor da campanha, pobre em argumentos
técnico-científicos, substituídos por recomendações
catastrofistas que, na ausência de contraditório,
facilmente impressionam quem as escuta. Não podia
faltar no cardápio a já desacreditada atoarda da
extinção do bacalhau, incutindo receios infundados e
procurando coagir os portugueses a consumirem menos
vezes o seu prato de eleição Lamenta-se que a
Greenpeace não distinga o stock de bacalhau do Mar
do Norte (efectivamente sujeito a um plano de
recuperação e que, até por isso, se percebe que não
está extinto), de todos os stocks autónomos de
bacalhau do Atlântico, cujos índices de segurança
biológica são excelentes, representando mais de 80
por cento da biomassa desta espécie existente neste
oceano.
A pesca na União Europeia é das actividades mais
condicionadas no seu exercício por uma política
comum imperativa, que limita as capturas e os dias
de mar para as embarcações. Valorizam-se pareceres
científicos e regimes precaucionários de gestão que,
na ausência de conhecimento sobre o estado de
recursos, restringem a capacidade produtiva. A
selectividade das artes de pesca tem sido melhorada,
por aumento da malhagem das redes, às quais são
acoplados dispositivos técnicos que visam impedir a
captura de peixe juvenil.
Sob a égide das Nações Unidas, estão constituídas
organizações regionais de pesca que gerem águas
internacionais, no seio das quais se privilegia a
protecção ambiental, através de planos de
recuperação de stocks menos robustos e medidas
cautelares de protecção de ecossistemas marinhos
vulneráveis, com erradicação total da pesca nas
zonas marítimas onde existam ou se suponha que
possam existir.
Por muito que custe à Greenpeace, a pesca
comunitária é uma actividade ordenada, sujeita a
complexas e exigentes disposições técnicas, que têm
imposto o abate de milhares de embarcações. São os
pescadores que suportam a perda de investimentos,
postos de trabalho e assistem, sem nada poder fazer,
à descaracterização das suas comunidades e à erosão
de valores culturais edificados durante séculos. Por
outro lado, os apoios estruturais públicos para
modernizar a fileira têm sido escassos para
compensar as perdas e para desenvolver projectos
criativos do tecido empresarial, com incorporação de
preocupações ambientais. Convém deixar dito que os
oceanos e os recursos de pesca sofrem a pressão de
uma série vasta de actividades exercidas no mar e em
terra, indutoras de poluição captada pelo meio
marinho, excedendo em muito o impacto nos stocks da
actividade piscatória.
Ignoram alguns ambientalistas, que, aliás, são
minoritários entre os que aceitam discutir com o
sector objectivos comuns, que sem abundância de
peixe no mar não há pescadores. Seria suicidário e
inexplicável à luz da razão que a pesca agisse no
interesse da sua própria morte. A consciência ética
e de responsabilidade na pesca comunitária é um dado
adquirido na formação individual e é transposta para
métodos de pesca monitorizados com avançada
instrumentação de comando, com a qual as capturas
são dirigidas para peixes de que os navios têm
quotas.
Fazendo referência à utilidade de um debate
construtivo entre todos os actores, a renúncia da
Greenpeace em integrar os Conselhos Consultivos
Regionais de Pesca da UE é ilustrativa da sua opção
unilateral nos conceitos e de afrontamento da
comunidade piscatória que trabalha legalmente, no
mar e em terra. Gostaríamos de ver esta ONG a
denunciar potências mundiais que se especializaram
no patrocínio da pesca ilegal, exercida sob bandeira
de conveniência, para que possa escapar impune e
exportar, por circuitos ínvios, para o mercado
comunitário. Nessa trincheira contem connosco.
Presido a um dos seis Conselhos Consultivos
Regionais e corrigiria a afirmação anterior se,
desde já, a Greenpeace aceitasse o convite público
para expor os seus pontos de vista nesse fórum. Se o
recusar, fica claro que o caminho que trilha é o do
show-off e o da difusão do medo. Secretário-geral da
Associação dos Armadores da Pesca Industrial (ADAPI)