O poder político e o poder económico assentam numa
rede de influência que fragiliza o poder do Estado e
deturpa as regras do mercado
Há uns tempos, num encontro com o dr. Silva Lopes,
este dizia-me que, do ponto de vista estritamente
económico, não era fácil explicar o atraso do país,
nomeadamente o facto de Portugal não ter conseguido
aproveitar os fundos comunitários que lhe foram
atribuídos, nestes últimos vinte anos. Alguns
estudos recentes têm tentado compreender a chamada
capacidade social de crescimento, tentando
estabelecer uma relação entre o desenvolvimento de
um país e as particularidades que, de certa forma, o
definem. Embora as investigações em curso ainda
estejam longe de permitir conclusões rigorosas,
existem, de facto, países, como Portugal, que
desafiam as estritas regras do crescimento
económico.
Não é necessário ser um "epígono" de Oliveira
Martins, como afirmava Rui Ramos, ontem, no PÚBLICO,
para se perceber que o velho "pessimismo" português
não é apenas um sinónimo de acomodação, mas sim uma
forma de analisar a realidade, levando em linha de
conta o permanente "atraso" em que Portugal se tem
afundado. É natural que a propaganda oficial, com o
seu optimismo descabelado, tenha como inimigo
preferencial os ditos "velhos do Restelo", os tais
que vivem à custa do pessimismo, agarrados a uma
"lengalenga" que, como diz Rui Ramos, "faz da
suposta crítica uma forma subtil de conforto". Muito
subtil, de facto!
Esta estéril e acomodada "lengalenga" ganha forma,
segundo Rui Ramos, num velho e conhecido "fado" que
se traduz nestes termos: "Sempre vivemos acima das
nossas posses, sempre dependemos do Estado, sempre
fomos medíocres e por aí fora". Deixando de lado
este último verso do fado, "sempre fomos medíocres",
que me parece uma caricatura de algo que não existe,
convém analisar os dois primeiros. Não vivemos
sempre acima das nossas posses? Como é que se
justifica, então, que vinte anos depois de aderirmos
à União Europeia e apesar dos milhões e milhões de
fundos que recebemos, a nossa dívida externa
ascenda, neste momento, a cerca de cem por cento do
PIB? E que o endividamento das famílias consiga
ultrapassar esse valor?
Quanto à eterna dependência do Estado, é difícil
saber como começar. Mas talvez seja suficiente
referir a crescente promiscuidade entre o sector
público e o sector privado que, mesmo à vista
desarmada, floresce impunemente em Portugal. Reféns
um do outro, o poder político e o poder económico
assentam, cada vez mais, numa rede de influências e
de favores que fragiliza a autoridade do Estado e
deturpa inevitavelmente as mais elementares regras
do mercado. Isto, para não falar de uma classe média
que se desenvolveu através do funcionalismo público
ou de uma classe empresarial que, em grande parte,
vive à conta do Orçamento.
Infelizmente, os outros indicadores económicos não
ajudam a compor o cenário. Basta levar em linha de
conta os trinta e tal anos de democracia e lembrar
as "bandeiras" da revolução. Apesar do progresso, do
acesso à Educação e à Saúde, das infra-estruturas
construídas e da melhoria das condições de vida da
população, o país encontra-se à beira do precipício.
Os sacrifícios, pedidos por todos os Governos,
desaguam inevitavelmente em mais sacrifícios:
continuamos a divergir da Europa, com um crescimento
económico que, mesmo antes da crise internacional
ser decretada pelo Governo, não chegava a 1,5 por
cento do PIB. Com uma agricultura destruída, uma
indústria incipiente e uma classe empresarial que
não se distingue pela sua capacidade empreendedora,
Portugal vive hoje a ressaca de todos esses amanhãs
que cantavam ao som do consumo desbragado e dos
vários "choques" que nos iriam abrir as portas do
desenvolvimento.
O rosário ou a "lengalenga" estende-se a quase todos
os domínios: à Saúde, à Justiça ou à Educação, essa
grande aposta da democracia, que nos atira para a
cauda da Europa, com uma taxa elevadíssima de
abandono escolar (perto de vinte por cento) e com um
défice de formação que se reflecte na
competitividade das empresas e dos produtos
nacionais.
Paralelamente, o país "descobriu" agora os valores
assustadores da pobreza (perto de 20 por cento da
população) que já existiam muito antes de serem
"descobertos": infelizmente, a pobreza é um fenómeno
persistente em Portugal, com tendência a agravar-se,
nos próximos tempos, graças à subida do petróleo e
ao aumento dos bens alimentares. Em matéria de
desigualdade somos um país recordista, com um fosso
cada vez mais profundo entre os mais ricos e os mais
pobres. O envelhecimento da população, que
caracteriza as sociedades ocidentais, atinge em
Portugal níveis assustadores. De acordo com dados do
Eurostat, em 2050, as pessoas com mais de 65 anos
representarão mais de trinta por cento da população
portuguesa. Não se vê como é que poderá haver
capacidade orçamental que suporte este aumento
assustador das necessidades. Mas, aparentemente, há
quem veja. Embora o estudo apresentado por Rui Ramos
e pelo Compromisso Portugal não seja propriamente
pródigo em propostas ou soluções. E, na ausência
destas, talvez seja preferível a "lengalenga" dos
epígonos de Oliveira Martins à hipotética
apresentação de alternativas que ninguém consegue
detectar. Jornalista