Frutas e legumes deverão ser distribuídos de
graça nas escolas da União Europeia Clara Viana
O novo programa, de adesão voluntária, é também um
instrumento contra esta nova forma de injustiça
social: há mais obesos entre os que são mais pobres
Com mais de cinco milhões de crianças obesas, outros
22 milhões com excesso de peso e uma tendência que
continua a ser de subida - o aumento estimado é de
400 mil por ano -, os países da União Europeia (UE)
foram ontem convidados a fazer mais contra esta
epidemia moderna, pondo os seus miúdos a comer fruta
e legumes. Para o efeito, a Comissão Europeia vai
disponibilizar 90 milhões de euros por ano para
financiar um programa de distribuição gratuita nas
escolas, destinado a crianças entre os seis e os dez
anos, cujo número, na UE, ronda os 26 milhões.
Com o aumento da ingestão de frutas e legumes não só
se ingerem mais fibras, vitaminas e minerais, como o
seu consumo tende a funcionar como bola de neve:
alimentos saudáveis puxam por outros do mesmo tipo.
O programa, que deverá entrar em vigor no ano
lectivo 2009-2010, parte do pressuposto de que as
aprendizagens iniciais tendem a manter-se para a
vida. Promover junto dos jovens "hábitos alimentares
saudáveis" será assim uma aposta no futuro, já que
pode fazer deles adultos com menos doenças. Dados de
2007 indicam que a obesidade é responsável por seis
por cento das despesas de saúde, em especial nas
doenças cardiovasculares e na diabetes tipo 2.
Estudos realizados em vários países, incluindo
Portugal, mostram que a obesidade passou a ter maior
incidência nas classes mais pobres. Uma explicação,
segundo João Breda, da Plataforma Nacional Contra a
Obesidade: "Os alimentos calóricos são mais
baratos". Segundo a Comissão Europeia, o programa
ontem aprovado ajudará a alterar a situação: a
distribuição gratuita de frutas e legumes nas
escolas terá "um impacto social positivo, reduzindo
desigualdades na saúde".
As frutas e os vegetais passaram já a ser
obrigatórios nos menus escolares de muitos países da
UE. A diferença é que, no futuro, se pretende que a
sua distribuição seja gratuita, à semelhança do que
em Portugal acontece com o leite e, noutros países,
como a Irlanda ou a Espanha, passou também já a
fazer-se com aqueles produtos. A adesão ao programa
é voluntária. Aos países que aderirem, a Comissão
garantirá um financiamento de 50 por cento (pode ir
aos 75 por cento nos mais pobres) das iniciativas
adoptadas.
Défice é maior nas crianças
"São muitas as crianças à nossa volta que não comem
frutas e legumes em quantidades suficientes e que,
frequentemente nem sabem apreciar o seu sabor. Basta
passear em qualquer grande avenida da Europa para
observar a dimensão dos problemas relacionados com o
excesso de peso das crianças. Chegou o momento de
tomarmos medidas", justificou o comissário
responsável pela Agricultura, Mariaan Fischer Boel.
Com a proposta de distribuição gratuita nas escolas,
ajuda-se a matar dois coelhos de uma só cajadada.
Esta medida foi um compromisso assumido, em Junho de
2007, nas negociações para a reforma da organização
do mercado das frutas e dos produtos hortícolas. Uma
mudança que tem em vista sobretudo travar o declínio
no consumo destes produtos.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS),
deve-se consumir 400 gramas por dia de legumes e
frutas. Na UE, o consumo per capita passou de cerca
de 415 gramas, em 2000, para 380 em 2006. A
manter-se a tendência, em 2010 estará nas 360
gramas.
O consumo de fruta e legumes entre as crianças é
menor do que nos adultos, frisa-se mo projecto de
resolução da Comissão. Inquéritos realizados no
âmbito do projecto comunitário Pro-Children, que tem
estudado a alimentação de crianças entre os dez e os
12 anos e das suas mães em nove países, entre os
quais Portugal, mostra, que em média só 17,6 por
cento das crianças com 11 anos comem a quantidade
diária recomendada pela OMS.
Esta percentagem varia entre 7,8 e os 24,1 por
cento. Com uma média de 143 gramas de consumo
diário, a Espanha e a Islândia são os que apresentam
piores resultados. Portugal e a Áustria, com 265
gramas/dia, são os que apresentam melhores
resultados. Para além destes, realizaram-se
inquéritos na Suécia, Bélgica, Holanda, Dinamarca e
Noruega.
Outra conclusão do Pro-Children: no geral, as
raparigas comem mais frutas e legumes do que os
rapazes.