Cábulas nas calculadoras dos alunos sem controlo
Pedro Sousa Tavares e Rita Carvalho
Educação. No dia em que os alunos ficaram a conhecer
as notas dos exames, que, em geral, desceram a
Português e melhoraram a Matemática, o DN mergulhou
no mundo dos 'auxiliares de memória', com recurso a
máquinas calculadoras
Cábulas nas calculadoras dos alunos sem controlo
Uma falha nas regras sobre utilização de
calculadoras permite aos alunos do secundário
levarem para os exames de Matemática e Física e
Química todos os 'auxiliares de memória' que
considerem necessários, como fórmulas que não
constem dos enunciados e até descrições "passo a
passo" de como resolver diferentes problemas.
Os recursos são diversos: desde activar a função
alfanumérica, presente na generalidade das
calculadoras gráficas autorizadas pelo Ministério da
Educação, e escrever as cábulas desejadas para
consulta posterior, às páginas da internet que
fornecem formulários e pistas em formatos já
adaptados às calculadoras mais populares, da Casio e
da Texas Instruments.
Longe de ser um segredo bem guardado, verificou o DN,
o método é conhecido por alunos e professores, e
tolerado como normal. Para o impedir, seria aliás
necessário eliminar das calculadoras a informação
para lá descarregada, algo que o próprio Ministério
proíbe: "Aos alunos é permitida a utilização de
todas as potencialidades da máquina, não sendo por
isso permitida qualquer intervenção no sentido de
fazer reset à mesma", diz um ofício de Janeiro da
Direcção-geral de Inovação e Desenvolvimento
Curricular e do Júri Nacional de Exames.
"Habitualmente, o que os professores fazem no início
das provas é verificar se as calculadoras estão na
lista permitida. E mesmo que não estejam os alunos
podem usá-las, desde que assinem um documento
assumindo esse facto", explicou ao DN Teresa
Caissotti, da Sociedade Portuguesa de Matemática.
"Verificar os conteúdos das máquinas, mesmo que
fosse permitido, seria fisicamente impossível,
porque estamos a falar de centenas de alunos, que
chegam aos exames 15 minutos antes".
Para esta professora, não há dúvida de que estamos a
falar de "auxiliares de memória" e que,
objectivamente pode haver "desigualdade" entre os
alunos nas provas , em função do volume de
informação descarregado para as calculadoras. No
entanto, é "discutível" que se possa considerar
estarmos perante uma forma de maus alunos chegarem
às respostas certas: "A matemática não se presta
muito a isso", diz. "Não basta consultar uma fórmula
para se conseguir resolver o problema".
Mas, sendo assim, poderá questionar-se porque se dá
o Ministério ao trabalho de dizer que as
calculadoras não podem ter funcionalidades como o
"cálculo simbólico (CAS)" ou "teclado QWERTY"
(aquele que é utilizado nos computadores), quando
essas limitações são facilmente contornadas pelos
estudantes.
A verdade é que até os próprios alunos parecem ter
dúvidas: "Recebemos muitos e-mails de estudantes a
perguntar se isto é mesmo assim. Se podem fazer
isto", disse ao DN Bruno Teixeira, da Aexames, uma
associação que gere um site dedicado a estudantes do
secundário e do superior.
O DN contactou o Ministério da Educação, solicitando
uma posição sobre esta situação, mas não obteve
resposta em tempo útil.