O orgulho que promove o horror João César das Neves
A cegueira ideológica é uma das forças mais
terríveis da humanidade, capaz de distorcer verdades
evidentes e impor tolices clamorosas. Por causa dela
durante 70 anos a vida social de vastas regiões foi
destruída em nome do mito da sociedade socialista.
Por causa dela hoje em Portugal se praticam as
maiores barbaridades em nome da saúde sexual e
reprodutiva.
O Governo, que fecha centros de saúde e mantém filas
de espera nas cirurgias, está empenhado em intensa
campanha de promoção do aborto. Esta expressão, que
pode chocar alguns, é uma justa descrição da
realidade. As autoridades não só usam dinheiros
públicos para financiar a morte do embrião mas
concedem "subsídio de maternidade" a quem decidiu
não ser mãe. Com medidas menos generosas os
ministros costumam afirmar promover o emprego, a
cultura, o investimento. Não há dúvidas portanto que
a política actual não é de despenalização,
liberalização ou até nacionalização do aborto, mas
de promoção aberta e intensa. O aborto é grátis,
subsidiado até às 12 semanas e castigado a partir
daí.
Entretanto transparecem os contornos de um vasto
atentado contra a saúde feminina. Mesmo que
aceitemos o postulado básico do Governo, semelhante
à defesa da escravatura, negando vida humana ao
embrião, mesmo que reduzamos o problema à
consideração exclusiva da saúde da mãe, as poucas
informações disponíveis são terríveis, justificando
medidas urgentes. Os jornais têm mantido um profundo
silêncio, mas apesar disso sinais assustadores
conseguem emergir.
Segundo declarações do director do serviço de
obstetrícia do Hospital de Guimarães (Rádio
Renascença, 27/06/2008; 7.55), nos 190 abortos aí
realizados em menos de um ano, 30% das "mulheres não
voltam para a consulta de revisão". Além disso há
várias situações de interrupções de gravidez
sucessivas, duas e três vezes em poucos meses. O
continuamente proclamado princípio da não utilização
do aborto como método contraceptivo é, como seria de
esperar, um mito flagrantemente negado na prática.
Os números provisórios indicam ainda que em todos o
país "11 a 12 mil mulheres já praticaram abortos nos
termos da lei" (loc. cit.) o que, sendo muito menos
que os números alarmistas da campanha de
liberalização, traduzem uma monumental hecatombe.
Dada a sempre alegada preocupação pela liberdade e
saúde da mulher, pode parecer estranho que ninguém
reaja. Os activistas feministas, tão preocupados com
a violência familiar, não perguntam quantas destas
interrupções foram mesmo voluntárias. Não existiram
muitos casos de coacção, chantagem, facilitismo,
degradação? Quanta miséria não escondem estes
números e informações? Num país onde se gastam
milhões para a promoção da saúde, onde se
multiplicam as regras para evitar os mínimos riscos
e onde as autoridades apregoam os mais impecáveis
objectivos sociais, como se explica a passividade
num tema tão influente? Quando se multiplicam
serviços de protecção aos direitos e de
monitorização da qualidade em tantas actividades
menores, espanta a indiferença perante esta
realidade. Espantaria, se a manifesta cegueira
ideológica não fosse suficiente para ocultar a
verdade.
A cegueira ideológica não é simples aldrabice. Ao
contrário do que se diz, este fenómeno não consiste
em má-fé, hipocrisia ou estupidez. O aspecto
exterior costuma ser semelhante, mas o processo
conducente é muito diferente. Quando alguém está
plenamente convencido de uma causa porque lutou
durante anos, a evidência do seu fiasco implica a
negação da própria identidade. Mesmo perante
resultados tão assustadores, como se pode dar o
braço a torcer, assumir o erro, inverter a
orientação? A cegueira nasce do orgulho.
Como no entorpecimento das autoridades soviéticas
diante da derrocada do sistema, continuaremos a
assistir entre nós às mais incríveis manobras,
declarações e interpretações, pelo menos enquanto
aqueles que geraram a catástrofe mantiverem o poder.
Na URSS foram necessárias duas geração para admitir
a evidência. Desta vez as coisas serão mais rápidas?