Um mal-estar bem para além da crise económica José Manuel Fernandes
Nunca se disse com toda a clareza que não era só ao
Estado que faltava dinheiro, era também a um país
que não tem deixado de perder competitividade
Talvez já seja tempo de acabar com as sessões de
psiquiatria a propósito do estado de depressão ou
euforia do país. Talvez já seja tempo de perceber
por que motivos se começou a respirar no país um ar
muito distinto do que se respira nos gabinetes
governamentais.
É certo que estalou uma crise económica
internacional, a primeira realmente importante desde
a recessão conhecida nos primeiros anos da década de
1990. Mas ela está longe de explicar tudo, até
porque ainda não vivemos uma situação de recessão a
nível internacional. Mais: quando o país passou por
essa primeira crise, no final do chamado "cavaquismo",
não se falou nem de depressão, nem se espalhou o
ambiente fatalista que hoje vivemos.
O aumento do preço do petróleo afecta os
consumidores, todos os consumidores e não apenas os
automobilistas ou os que têm de utilizar transportes
cujas tarifas foram actualizadas. O aumento das
taxas de juro também afecta milhões de portugueses,
quer por pesar na carteira das famílias
sobreendividadas, quer por dificultar o recurso ao
crédito e, assim, tornar mais difícil investir. E
sem investimento privado não há desenvolvimento
económico.
Mesmo assim estas circunstâncias, que se foram
tornando evidentes para todos nos últimos meses, não
podem explicar a sensação de desconforto que vinha
de antes. E para essa sensação temos de encontrar
explicações que ultrapassam a esfera da economia, ou
do dinheiro que sobra no fim do mês, até porque o
recurso ao crédito (de forma muitas vezes
irresponsável) tem permitido que muitos adiem a
mudança de estilo de vida.
O que se passa é mais profundo e mais complexo. E
envolve a relação da sociedade com as suas elites,
em especial as elites políticas no poder.
Na verdade, quando, há três anos, este Governo tomou
posse, existia no país a convicção de que "alguma
coisa tinha de ser feita". E inicialmente assim
sucedeu, só que o impulso inicial começou a
esmorecer quando o descontentamento dos afectados
começou a aumentar e deixou de funcionar a retórica
do ataque "aos privilégios". O aperto do cinto foi
indiscutível: subiram os impostos, diminuíram muitas
prestações sociais, aumentou o desemprego,
apertaram-se os sistemas de vigilância que, depois
de terem sido bem recebidos (caso do combate à
fraude fiscal e da ASAE dos primórdios), foram sendo
palco de abusos e excessos, o Estado dirigista
tornou-se ainda mais pesado, inclusive dentro das
empresas privadas, e as diferentes "compensações
sociais" foram sempre curtas e deixaram quase sempre
de fora a classe média.
Quando se esperavam alguns resultados, eles não
vieram. Por causa da crise internacional? Não. Antes
de ela se tornar evidente já começara a derrapagem.
Os sinais de recuperação da economia nunca chegaram
a ser vigorosos e o que no início foi sendo aceite
como sendo sacrifícios inevitáveis, a pouco e pouco
começou a ser pior compreendido. O discurso da
autoridade e da luta contra as iniquidades deu lugar
a uma mistura de arrogância tonitruante e cedências
mal explicadas. Foi-se instalando o pior dos
sentimentos: o de que se fizera sacrifícios para
nada ou muito pouco.
Esta situação foi acompanhada pela crescente
percepção que havia um mundo "deles", cor-de-rosa,
protegido, radioso, e um mundo onde a vida se ia
tornando mais complexa sem que os diferentes poderes
oferecessem perspectivas de saída. Um dos exemplos
mais cristalinos de que há um mundo de ficção e
propaganda e um mundo real acaba de ser dado com o
"milagre" das notas nos exames de Matemática, um
"milagre" que revela antes do mais que há sempre
quem seja demasiado zeloso e mais papista do que o
Papa: o exagero de "evolução" da sapiência dos
estudantes acabou por colocar a nu a grosseria da
manipulação.
Ao mesmo tempo, os portugueses olhavam em volta e
desesperavam. As muitas embrulhadas em que se
meteram algumas das grandes empresas portuguesas, a
mistura de interesses e cumplicidades com o poder
político e a forma como alguns deliberavam sobre a
sua própria remuneração contribuiu para criar uma
sensação de que havia "os de cima" e "os de baixo" a
um ponto que não se via desde os tempos da
revolução. E, como se isso já não fosse
suficientemente mau, o facto de não ter existido (e
veremos se passou a existir) uma oposição
consistente agravou a sensação de desamparo e de
estarmos num beco sem saída. O refúgio, o único
refúgio, era o protesto e os partidos de protesto,
por enquanto generosamente tratados nas sondagens.
É por isso que a nossa crise é muito mais do que
económica e os nossos actuais problemas não são
apenas uma consequência da crise internacional. Ou
que o que está a acontecer aos planos de Sócrates
não representa qualquer "injustiça" derivada da
imprevisibilidade dos mercados financeiros. O mal é
e sempre foi mais profundo: nenhum país pode estar
bem consigo quando fica para trás, apesar de todos
os fingimentos; nenhuma economia familiar resiste
quando se chegou a um ponto em que a dívida externa
do país já equivale à totalidade do que produzimos
num ano. Ora se aqui chegámos não foi nem por causa
da subida do petróleo, nem da crise do subprime: foi
porque nunca se disse com toda a clareza que não era
só ao Estado que faltava dinheiro, era também a um
país que não tem deixado de perder competitividade e
que não a ganhará com estatísticas forjadas na
secretaria.