Há mais de 20 anos entregaram-me o Arquivo Histórico
da Misericórdia de Lisboa. Fui ver como era e
deparei-me com uma cave escura, uma entrada de
garagem, no chão poças de água suja, beatas e folhas
soltas do Crime e da Bola. Não era um começo
promissor, mas segui em frente acolitada por uma
equipa feita com a prata da casa e um jovem
estagiário licenciado em História.
O simples gesto de abrirmos as primeiras caixas e de
desatarmos os cordéis que amarravam os pacotes
poeirentos e amarelados pareceu revelar--se como que
uma profanação, só atenuada pela reverência da nossa
curiosidade. Do primeiro maço de cartas constavam as
guias de remessa de recém-nascidos, assinadas pelo
Enfermeiro-Mor do Hospital de Todos-os-Santos. Eram
os sobreviventes de gravidezes ocultas, famintas e
desamparadas que haviam causado a morte das mães.
Mas foi das caixas que saíram, intactos no meio do
farelo em que o papel se tinha transformado, os
primeiros sinais dos expostos. Havia sinais de todos
os géneros: os de pedras preciosas, ouro e prata ou
confeccionados em tecidos ricos como o brocado, o
veludo ou a seda revelavam a origem nobre do
exposto; outros, muito mais modestos, eram feitos em
tecidos pobres, bordados em singelo ponto de cruz ou
ponto pé-de-flor e, por vezes, uma pequena medalha.
Enquanto que das crianças enviadas pelo
Enfermeiro-Mor não se sabia mais nada, as que eram
deixadas na Roda levavam, quase sempre, aquele
sinal. Mãos amorosas tinham-nos confeccionado no
desespero de uma circunstância fortuita e na
esperança de um reencontro futuro. As mãos que
abandonavam eram as mesmas. Paradoxo? Não me parece;
apenas um derradeiro esforço de impedir que o tempo
tudo apagasse ou um acto final de expiação.
Não minto se disser que aqueles sinais, resistentes
ao tempo, que no seu conjunto contavam séculos de
histórias, dramas, sofrimento e, decerto, também
redenção foram tão avassaladoramente esclarecedores
que nada do que li ou experimentei depois me
elucidou tanto.
O abandono de recém-nascidos é antigo como o mundo,
existiu em todas as classes sociais, consta de
muitas das lendas e contos que passaram de geração
em geração. Heróis da mitologia e figuras bíblicas
foram mesmo despojados de qualquer maternidade como
se assim assumissem mais plenamente a sua grandeza:
Rómulo e Remo alimentados por uma loba, Moisés
deixado numa cesta deslizando pelas águas do Nilo
até às mãos com- passivas da irmã do Faraó. Ao longo
de séculos, gerações de mulheres abandonaram os
filhos e em muitos casos esse foi, ainda, um acto de
amor.
Os tempos modernos criaram a ilusão de que tais
factos, agora apelidados de "fenómenos", eram
residuais, que as causas que os provocavam iam
desaparecer. Não foi assim. A Roda acabou mas foi
substituída por uma pirâmide burocrática sem coração
e sem rosto. As mãos que, após o toque da sineta,
faziam girar a roda e acolhiam a criança exposta
foram substituídas por um Estado que, como se viu em
Portugal, deixa impunemente que as crianças sejam
usadas e abusadas. A condição humana é imutável e a
sua pseudo-sofisticação parece não ter resultado.
Prova disso mesmo está no recente relatório do
Conselho da Europa sobre as novas Rodas ou as
"Caixas de Bebés", que proliferam oficialmente em
países europeus como a Suíça, Itália, Alemanha e
Bélgica, nos Estados Unidos e, mais recentemente, no
Japão. Aos argumentos contra, assentes no
incitamento a práticas criminosas e à
desresponsabilização dos progenitores que estas
Caixas podem fomentar, surgem os argumentos a favor,
da preservação da integridade física e da vida
destas crianças. Acresce que as novas rodas
acarretaram uma salutar alteração legislativa:
criança deixada na Caixa é imediatamente registada
e, decorrido um curto período em que os pais a podem
reclamar, é entregue sem mais formalidades aos
candidatos à adopção.
Este realismo lúcido confortou-me. Tanto, devo
dizê-lo, como me tem inquietado a cartilha oficial
do abandono, em Portugal. Muitas crianças, poucos
sinais...