"Portugal está confrontado de novo com a
recessão"
O economista Daniel Bessa defendeu ontem que "vai
ser muito difícil Portugal sair de um crescimento
anual médio de 1,5 nos próximos dez ou 15 anos" e
que o País "está confrontado de novo com a
recessão".
O actual director da Escola de Gestão do Porto, que
foi ministro do primeiro governo de António Guterres,
foi o conferencista convidado de mais uma edição dos
Encontros Millennium bcp, desta feita realizada no
Porto, no edifício da Alfândega.
Perante uma plateia constituída por muitas centenas
de empresários e gestores, Daniel Bessa centrou a
sua intervenção sobre a crise actual e as suas
repercussões na economia portuguesa.
"Sinto-me, perante o que se está passar no mercado
de capitais e na economia em geral, como qualquer
ser humano perante uma grande tempestade", disse
logo a abrir, tendo como pretexto próximo a queda de
quase cinco por cento verificada hoje na bolsa
portuguesa.
Daniel Bessa não tem grandes ilusões: "A coisa
transcende-nos absolutamente e sentimos que somos
capazes muito pouco, se alguma coisa".
Se os presentes esperavam ouvir da sua boca uma data
previsível para o fim "tormenta" que se abateu sobre
a economia nacional e internacional, Bessa
desiludiu-os: "Não sei quando vai acabar".
A inflação preocupa-o. Em sua opinião, "não é um
disparate" se o Banco Central Europeu (BCE) voltar a
subir as taxas de juro, tal como alguns receiam e
muitos contestam. "Espero que o BCE não prescinda de
controlar a inflação e os preços. Acho que faz bem
se subir as taxas de juro", declarou.
O Professor entende também que "estas são também
épocas de grandes oportunidades" para empresas
capazes de se expandir. Para tal, é preciso ter
"robustez financeira" e ser-se "atrevido", resumiu.
Daniel Bessa voltou a criticar "as estratégias de
crescimento puxadas pelo consumo", que, no seu
entender, são "um caminho para o desastre". Lembrou,
a propósito, que foi esse o modelo que Portugal
adoptou nos anos 90 do século passado, "em
particular na segunda metade".
Mas pior do que o caso português, prosseguiu, "é o
modelo espanhol", que se prolongou por mais anos.
"Aquilo só podia acabar mal", sublinhou, numa
referência à travagem brusca que a economia
espanhola está a sofrer, e que ele, aliás,
prognosticou semanas atrás noutra sessão destes
Encontros Millennium bcp.
"Quero ver agora como é que a economia espanhola vai
recuperar e quantos anos vai tardar", comentou.