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Público - 7 Jul 03
Quem Elimina o Sofrimento?
Por LUIS SALGADO DE MATOS
Nos últimos anos o indivíduo tornou-se o rei em casa. Um exemplo é a maior
facilidade do divórcio.
No campo da família, o legislador é dominado pelo predomínio absoluto da
liberdade individual; por isso esquece que ela não é o único valor.
A nova lei da família parece servir apenas para permitir a concretização dos
desejos de cada um de nós. Justificando uma proposta para facilitar o divórcio,
o Bloco de Esquerda afirma: «Queremos acabar com uma das principais fontes de
sofrimento de muitos casais».
A imodéstia da promessa concretiza o ar do tempo: quem quer divorciar-se, deve
poder fazê-lo no minuto seguinte a ter formado a vontade; se não tiver o direito
de realizar imediatamente os ditames da sua vontade, está a ser vítima de uma
opressão e passa à categoria de «vítima». Como vítima, tem que merecer o nosso
apoio.
A esquerda tem feito seu o programa liberalizador dos costumes: facilitar o
divórcio é um tema transversal à sociedade política mas é impulsionado pela
esquerda.
Será lógico que a esquerda defenda esta liberalização? O leitor reparou por
certo que a esquerda que quer facilitar o divórcio é a mesma que quer dificultar
o despedimento. Porque motivo será bom o individualismo doméstico e o dirigismo
empresarial?
A esquerda quer tornar menos liberal a legislação de trabalho para proteger os
mais fracos - que identifica com os assalariados. Nas relações privadas não
haverá fracos e fortes?
Vejamos a razão por que nos era prometido o fim de «uma das principais fontes de
sofrimento» dos casais desavindos. A promessa justificava a instituição de uma
nova modalidade de divórcio: por vontade unilateral de uma das partes;
seria assim evitado o «sofrimento» provocado pelo divórcio litigioso -
indispensável se um dos cônjuges quer o divórcio e o outro lho nega.
O divórcio unilateral violaria de modo directo a lógica do casamento civil: o
casamento é um contrato e só a vontade das duas partes lhe pode pôr termo -
excepto se uma dessas partes violou a lei.
Este divórcio unilateral, e de facto ditatorial, fortalecerá o cônjuge mais
fraco? O cônjuge mais fraco é o que mais precisa do casamento - por motivos
económicos ou sentimentais. Será ele a expulsar o outro cônjuge? Talvez. Mas é
mais provável que seja o mais forte a tomar a decisão de pôr fim ao vínculo.
Seria bom aprofundar o estudo dos efeitos dos divórcios. Por certo veríamos que,
quanto mais baixo é o estrato social dos divorciados, quanto menor é a sua
educação formal, mais o divórcio acarreta exclusão social - sobretudo para o
homem.
A ser de facto assim, marcharíamos para uma situação paradoxal: os mais fracos
teriam emprego protegido mas seriam expulsos de casa e por isso, apesar do
emprego, não sobreviveriam. Facilitar o divórcio apareceria como a reacção de
uma sociedade demasiado protegida: os mais fracos serão eliminados em nome dos
imortais princípios.

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