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Público - 21 Jul 03
Para Aumentar a Produtividade
Por JOSÉ DIAS URBANO
Reconhecidamente, a baixa produtividade dos portugueses é um dos principais
entraves ao crescimento da nossa economia. Não se estranha por isso que o
governo esteja interessado em aumentá-la.
A mais concreta iniciativa que se conhece até ao momento para atingir esse
objectivo é de natureza legislativa: o ministro da Segurança Social
pretende flexibilizar a organização do trabalho e tudo
leva a crer que consiga o seu objectivo. A relação de
causa-efeito entre a flexibilidade e a produtividade
laborais foi apresentada por Bagão Félix numa entrevista num dos canais de
televisão socorrendo-se de uma pitoresca analogia entre o divórcio e o
despedimento. O argumento foi o seguinte: da mesma maneira que a
facilitação do divórcio promoveu a celebração de novos
contratos matrimoniais, também uma maior facilidade no
despedimento favorecerá a celebração de novos contratos
laborais. Infere-se desta analogia que o novo Código do Trabalho
contribuirá para o crescimento económico através do aumento do emprego,
mas também, e sobretudo, através do aumento da
produtividade, porque todos passarão a trabalhar mais
para evitar ser despedidos.
A lógica do raciocínio é irrefutável quando aplicada a uma economia assente
em mão-de-obra pouco qualificada, auferindo baixos salários. Mas esse
modelo deixou de nos servir com a globalização dos
mercados e com a entrada na União Europeia de países que
dispõem de mão-de-obra mais qualificada, mais barata e
mais disciplinada. No entanto, tal não invalida a necessidade
detectada por Bagão Félix de atingirmos graus de disciplina no trabalho
muito superiores aos actuais.
Na verdade, é necessário acabar com a indisciplina generalizada que é por
vezes confundida com direitos dos trabalhadores se pretendermos ter
sucesso no desiderato de nos aproximarmos dos padrões de
vida dos países com os quais decidimos partilhar um
futuro comum. Contudo, duvida-se que esse objectivo possa
ser alcançado confiando apenas na actuação de empresários
que, na sua maioria, são tão desqualificados e indisciplinados quanto os
seus trabalhadores. Por esta razão, é imperioso encontrar outros meios de
aumentar a produtividade, sob pena do principal efeito do novo Código do
Trabalho se reduzir ao aumento do sofrimento individual e familiar, sem
atingir o fim pretendido.
Como diria Ramalho Ortigão, devemos "espraiar os olhos pelo mundo activo" e
olhar para aquilo que os países mais ricos que fazem quando pretendem
aumentar a produtividade. Olhemos, por exemplo, para o que se passa no
Reino Unido.
De acordo com um relatório do ministério das finanças britânico, enquanto o
emprego se tem situado em níveis satisfatórios, a produtividade é pobre
desde os tempos do pós-guerra. É claro que ela é muito superior à
portuguesa, ou não fosse a economia do Reino Unido uma das três mais
fortes da UE. Mas, mesmo assim, aquele país precisa
também de aumentar a produtividade do trabalho e, por
isso, vale a pena seguir o raciocínio que balizou a acção
do Chanceler do Tesouro Gordon Brown para atingir esse
objectivo de forma sustentada:
"Se os fabricantes do Reino Unido igualassem os níveis de produtividade da
França, da Alemanha ou dos Estados Unidos, e tudo o resto permanecesse na
mesma, a economia britânica ficaria mais rica 70 biliões de libras por
ano, criando prosperidade para todos... A chave para a
melhoria da produtividade é o investimento em inovação...
A inovação é o coração do aumento da produtividade e dos
ganhos sociais. A ciência faz uma contribuição
importante, fornecendo a matéria-prima para a inovação - novos conhecimentos
e maneiras de compreender o nosso mundo, novas técnicas para resolver
problemas, novas tecnologias e negócios, mas acima de tudo pessoas
altamente educadas."
Convencido destes factos, Gordon Brown encarregou um ilustre cientista de
Oxford, o físico Sir Gareth Roberts, de analisar o sistema educativo do
Reino Unido sob o ponto de vista da formação de cientistas e engenheiros,
"com vista a encontrar maneiras de assegurar um fornecimento saudável de
investigadores qualificados, particularmente dos habilitados com o grau
de doutor".
Esta tarefa foi-lhe atribuída em Março de 2001 e o relatório final foi
entregue ao governo em Abril de 2002. Durante um ano, Sir Gareth Roberts
analisou "toda a cadeia educativa, desde as escolas primárias à
investigação e desenvolvimento industriais", tendo
visitado "empresas, universidades, escolas, sociedades
científicas e agências de desenvolvimento regional".
Visitou igualmente "outros países, para colher das suas experiências".
No seu extenso e fundamentado relatório, Sir Gareth Roberts faz 36
recomendações que vão desde aumentar a participação de mulheres e das
minorias étnicas em actividades de ciência e engenharia, até facilitar as
migrações e as licenças de trabalho, passando por melhorar a formação
científica dos professores primários e secundários e por incrementar a
colaboração entre o mundo dos negócios e o do ensino superior. Entre as
ideias subjacentes sobressaem duas particularmente relevantes: a inovação
faz-se nas empresas, quando transformam conhecimento em produtos e ideias
negociáveis; é urgente combater a decrescente atracção dos jovens pela
ciência e pela engenharia.
O Governo do Reino Unido reagiu em 23 de Julho de 2002 lançando o programa
"Investindo em Inovação: uma Estratégia para Ciência, Engenharia e
Tecnologia" que é fruto da acção concertada de quatro ministérios -
Finanças, Educação, Comércio e da Industria, e Ciência e Inovação. Nesse
programa responde-se a cada uma das 36 recomendações de Sir Gareth
Roberts.
A referida estratégia do governo do Reino Unido não cabe, mesmo em forma
resumida, num artigo de jornal, mas pelo que ficou dito pode desde já
comparar-se a diferença de atitudes entre os governos do Reino Unido e de
Portugal.
O primeiro envolve quatro ministérios numa estratégia concertada de
investimento em inovação; o segundo elabora um novo Código do Trabalho,
no âmbito restrito de um único ministério. O primeiro
começou a executar acções concretas para assegurar o
fornecimento suficiente de pessoal qualificado em
ciências e engenharia; o segundo atirou-se a mais uma reforma educativa que
dificulta o contacto dos jovens com o mundo fascinante das ciências
físicas e biológicas.
O governo britânico impôs-se a si próprio o objectivo de aumentar a riqueza
produzida até 2006, através de ganhos da produtividade que espera
conseguir por meio de um considerável investimento em
educação e inovação; o governo português continua a
navegar à vista, entregando-se, indefeso, aos caprichos
da conjuntura internacional. O primeiro recorreu a cientistas; o segundo a
juristas e a "especialistas" em educação, insistindo numa metodologia que
nos tem condenado a um futuro pobre e sem esperança.
Nas sociedades hodiernas, em que todas as formas de actividade foram
invadidas por técnicas de base científica, os problemas económicos não
podem ser resolvidos apenas por juristas e economistas e,
muito menos, por "especialistas de educação". Eles não
possuem, nem se lhes pode exigir que possuam, a cultura
científica necessária para identificar correctamente as
questões chave a que é preciso dar resposta. É indispensável pedir também a
colaboração de cientistas, mas estes, infelizmente, quase nunca são
consultados. E, quando o são, geralmente os seus conselhos não são tidos
em conta. Quando é que nossos políticos, antes de tomar
decisões, se dispõem a "espraiar o olhar pelo mundo
activo"?
Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra

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