Público - 24 Jul 03

Cinco Conselhos para a Estação X
Por LEONETE BOTELHO

Saltitando sobre brasas, ou como quem caminha sobre ovos, o país já está de férias, "allegro, ma non troppo". Há quem já lhe chame "Verão quente" pois há algo que escalda, como areia à uma da tarde, na sola dos pés. Para o caso, chamemos-lhe estação X, numa tradução livre de "chilli season". Cinco conselhos para sobreviver nas férias, neste estranho ano de 2003:

1) Desligue o telemóvel. Não lhe tire apenas o som, desligue-o mesmo da rede. Nunca ouviu falar em escutas víricas, altamente contagiantes, capazes até de interceptar conversas ambientes, mesmo com o aparelho em "stand by"? Parece grave, mas não se preocupe: o ministro da Saúde já informou que não se trata de nenhuma epidemia, nem sequer de um surto, são apenas casos isolados e já totalmente controlados, embora de prognóstico reservado.

2) Desligue a televisão. Se pensa que o país está todo em férias, está redondamente enganado. "Eles" ainda andam por aí, a dar entrevistas, a comentar notícias, a fazer declarações de circunstância ou, mais camufladamente, nos bastidores da contra-informação. Se tiver mesmo de a ligar, certifique-se que tem cabo e vá acompanhando a belíssima série "Bush&Blair no País das Mil-Mentiras".

3) Troque os jornais por revistas estrangeiras - com efeitos impressionistas garantidos na pessoa da mesa ao lado, para além de ajudar a desentorpecer a língua -, ou livros indispensáveis para compreender o léxico da época: Código de Processo Penal anotado por Maia Gonçalves, editora Almedina (vai já para a 13ª edição, reserve antes que esgote). Franz Kafka à escolha: "O Processo", para quem recusou a sugestão anterior, "A Metamorfose", para os pessimistas, e "O Castelo", para os optimistas. Os trabalhadores da administração pública podem aproveitar para ler o "best-selller" "Quem Mexeu no Meu Queijo", do dr. Spencer Johnson (encontrável nas prateleiras de gestão!)."Morte no Nilo" e afins, de Agatha Cristhie, onde todos são suspeitos até prova em contrário. Elementar, meu caro...

4) Deixe o carro e vá de avião. Entre as estradas, as brigadas de trânsito e os automobilistas portugueses, venha o diabo e escolha. Além do mais, apesar de anunciada a retoma, os políticos portugueses parecem ter escolhido Portugal para seu grande destino de férias, pelo que corre o risco de dar de cara com algum na sua praia preferida. O melhor da crise económica são os preços das viagens de última hora. Mas evite Cuba, onde o pior dos dois sistemas convivem, entre Havana e Guantanamo.

5) Não leve o portátil, evite os "cibercafés". Esqueça os "blogues", os "mails" e a Internet e fale com quem está por perto. Experimente a sensação da abelha que se livrou da teia e vá fazer mel sob a lua. Viaje, converse, beba uns copos, passeie a pé, sinta a brisa fresca da noite no rosto. Sorria, ria. Viva! Vai ver, quando voltar, que não perdeu nada. Antes ganhou.

Boas férias

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