No passado dia 21 de Maio a
Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou o primeiro tratado internacional
nos 55 anos da sua história. Mas qual é a «epidemia, o problema global (...)
de consequências devastadoras» (p. 4) de que se ocupa esse texto fundamental e
inovador? O cancro? A malária? A tuberculose? A Sida? Não, é ... o cigarro. A
Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco revela muito sobre a nossa era.
Dizemos que estamos num tempo de liberdade e tolerância, em que cada um faz o
que quer e ninguém tem nada com isso. Entre adultos que consentem todos os
actos devem ser aceites. Ora fumar é uma acção voluntária, um hábito, um
vício, não uma enfermidade. Ser tratado ao mais alto nível como uma peste a
erradicar é, no mínimo, anómalo. Não tarda teremos campanhas contra as batatas
fritas porque, como a nicotina, «o colesterol mata».
O insólito chega ao paroxismo ao notar que noutros temas a abordagem é oposta.
Por exemplo, ao repetir que os drogados são doentes, pretende-se em geral
justificar, não a opressão como no fumo, mas a liberalização do consumo. E no
extremo oposto, outras doenças desaparecem. Foi muito aplaudido quando em
Março de 2001 a Associação Psiquiátrica Chinesa retirou finalmente a
homossexualidade da lista das doenças mentais, que a Associação Psiquiátrica
Americana fizera em 1973 e a OMS em 1981.
A homossexualidade é uma opção normal, a droga uma doença a tratar, mas fumar
é perversão a combater. Esta é a classificação geralmente aceite. Mais do que
isso, é a única admissível. Se alguém se atrever a achá-la estranha é atacado
e ridicularizado. Estamos num tempo de tolerância mas sobre estes temas não há
opinião alternativa. Temos mesmo uma era muito curiosa!
Um outro caso interessante vê-se no campo da biotecnologia. Os cientistas
conseguem hoje, por manipulação dos cromossomas, obter plantas e animais muito
mais resistentes e produtivos, o que traz já expectativas notáveis no combate
à fome. Apesar disso muitos países pobres recusam-nos, por medo de... sanções.
De facto, na Europa várias organizações e grupos de pressão têm-se revoltado
violentamente contra os alimentos geneticamente modificados. A questão suscita
por cá paixões tão furiosas e previsões tão catastróficas, que se esquece que
a OMS aprova esses alimentos e os americanos os consumem há anos sem
problemas.
A coisa chegou a tal ponto que no ano passado, sofrendo uma das piores secas
da História, a Zâmbia recusou a ajuda alimentar que os EUA lhe enviaram,
porque o milho e a soja oferecidos eram, em parte, geneticamente modificados.
Os zambianos temiam que, ao aceitarem esses grãos, os europeus viessem depois
a recusar-lhes as exportações agrícolas, sob o pretexto de que as sementes
podiam ter sido plantadas em campos africanos.
Mas enquanto recusa a biotecnologia alimentar, a Europa (sobretudo a
Grã-Bretanha) faz intensa investigação genética em tecidos e embriões humanos,
que os americanos limitam por razões morais. Aquilo que é horrível fazer em
cereais é aceitável em pessoas. Vivemos mesmo uma era muito bizarra!
A tecnologia trouxe-nos ganhos espantosos, e em nenhum campo eles são tão
maravilhosos como na saúde. Combatemos doenças poderosas e eliminamos velhas
maleitas. Mas o mundo, tão poderoso na ciência, revela cada vez mais que a sua
principal doença é a terrível desorientação ética em que vive.