Diário de Notícias  - 14 Jul 03

Doenças
João César das Neves

No passado dia 21 de Maio a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou o primeiro tratado internacional nos 55 anos da sua história. Mas qual é a «epidemia, o problema global (...) de consequências devastadoras» (p. 4) de que se ocupa esse texto fundamental e inovador? O cancro? A malária? A tuberculose? A Sida? Não, é ... o cigarro. A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco revela muito sobre a nossa era.

Dizemos que estamos num tempo de liberdade e tolerância, em que cada um faz o que quer e ninguém tem nada com isso. Entre adultos que consentem todos os actos devem ser aceites. Ora fumar é uma acção voluntária, um hábito, um vício, não uma enfermidade. Ser tratado ao mais alto nível como uma peste a erradicar é, no mínimo, anómalo. Não tarda teremos campanhas contra as batatas fritas porque, como a nicotina, «o colesterol mata».

O insólito chega ao paroxismo ao notar que noutros temas a abordagem é oposta. Por exemplo, ao repetir que os drogados são doentes, pretende-se em geral justificar, não a opressão como no fumo, mas a liberalização do consumo. E no extremo oposto, outras doenças desaparecem. Foi muito aplaudido quando em Março de 2001 a Associação Psiquiátrica Chinesa retirou finalmente a homossexualidade da lista das doenças mentais, que a Associação Psiquiátrica Americana fizera em 1973 e a OMS em 1981.

A homossexualidade é uma opção normal, a droga uma doença a tratar, mas fumar é perversão a combater. Esta é a classificação geralmente aceite. Mais do que isso, é a única admissível. Se alguém se atrever a achá-la estranha é atacado e ridicularizado. Estamos num tempo de tolerância mas sobre estes temas não há opinião alternativa. Temos mesmo uma era muito curiosa!

Um outro caso interessante vê-se no campo da biotecnologia. Os cientistas conseguem hoje, por manipulação dos cromossomas, obter plantas e animais muito mais resistentes e produtivos, o que traz já expectativas notáveis no combate à fome. Apesar disso muitos países pobres recusam-nos, por medo de... sanções. De facto, na Europa várias organizações e grupos de pressão têm-se revoltado violentamente contra os alimentos geneticamente modificados. A questão suscita por cá paixões tão furiosas e previsões tão catastróficas, que se esquece que a OMS aprova esses alimentos e os americanos os consumem há anos sem problemas.

A coisa chegou a tal ponto que no ano passado, sofrendo uma das piores secas da História, a Zâmbia recusou a ajuda alimentar que os EUA lhe enviaram, porque o milho e a soja oferecidos eram, em parte, geneticamente modificados. Os zambianos temiam que, ao aceitarem esses grãos, os europeus viessem depois a recusar-lhes as exportações agrícolas, sob o pretexto de que as sementes podiam ter sido plantadas em campos africanos.

Mas enquanto recusa a biotecnologia alimentar, a Europa (sobretudo a Grã-Bretanha) faz intensa investigação genética em tecidos e embriões humanos, que os americanos limitam por razões morais. Aquilo que é horrível fazer em cereais é aceitável em pessoas. Vivemos mesmo uma era muito bizarra!

A tecnologia trouxe-nos ganhos espantosos, e em nenhum campo eles são tão maravilhosos como na saúde. Combatemos doenças poderosas e eliminamos velhas maleitas. Mas o mundo, tão poderoso na ciência, revela cada vez mais que a sua principal doença é a terrível desorientação ética em que vive.
 

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