Os variados inimigos da razão João César das Neves
Passa este ano o 80.º aniversário de um dos mais
curiosos livros de história de sempre. Na vasta obra
de Hilaire Belloc (1870-1953) o pequeno volume de
1929 Survivals and New Arrivals. The Old and New
Enemies of the Catholic Church (reedição Tan Books,
1992; www.ewtn.com/library/ANSWERS/SURVIV.HTM) passa
despercebido apesar da sua impressionante lucidez.
O autor parte de um facto evidente: "Uma única
instituição, há já mil e novecentos anos, tem sido
atacada, não de um princípio oposto, mas de qualquer
ponto concebível. Foi denunciada de todos os lados e
por razões sucessivamente incompatíveis: sofreu
desprezo, ódio e triunfo efémero de inimigos tão
diversos quanto a diversidade das coisas pode
produzir. Esta instituição é a Igreja Católica"
(p.1). Exemplos históricos desses ataques
contraditórios são múltiplos. "Nestas últimas épocas
ela foi furiosamente condenada por laxismo na
disciplina e por extravagante severidade, por
ligeireza de organização e por tirania; por combater
os apetites naturais do homem e por lhes permitir
excesso e até perversão" (p.1-2).
Ao considerar, numa dada era, os inimigos que
confrontam a Igreja, o autor classifica-os em três
partes. Além dos ataques em plena força, a que chama
"oposição principal" (main opposition), existem mais
dois grupos curiosos. Um é dos sobreviventes (survivals),
que tiveram o seu tempo e manifestam alguma força
decadente. O outro inclui os recém-chegados (new
arrivals), que dominarão épocas futuras. Esta
dinâmica tripartida resume a eterna e multifacetada
oposição à Igreja.
O essencial do livro, como se adivinha, constitui
uma análise cuidadosa das forças que em 1929
hostilizavam a fé católica. A oposição principal
vinha então de três lados: o nacionalismo nazi,
fascista ou galicano, o anticlericalismo maçon ou
liberal e o agnosticismo superficial e irresponsável
da autodenominada "mente moderna". Além disso
existiam cinco sobreviventes de tendências
anteriores: o ataque bíblico dos fundamentalistas
literais, o materialismo marxista ou positivista e
três doutrinas anticatólicas baseadas no realismo
político- -social (argumento "riqueza e poder"), na
evolução social (argumento histórico) e na
investigação física (negação científica). Todos
estes raciocínios oitocentistas, mantendo
virulência, estavam em claro declínio nos inícios do
século XX.
O elemento em que a argúcia de Belloc brilha é na
identificação dos novos ataques. Nessa secção
aparece uma única força. Décadas antes da New Age e
O Código Da Vinci, o historiador antecipa que o
futuro inimigo do catolicismo será o "neopaganismo".
Qual é hoje o alinhamento dos inimigos da Igreja?
Seria preciso o génio do franco-britânico para
responder à questão, mas algo pode ser dito. A sua
estrutura permanece válida. Não há dúvida de que a
oposição principal dos anos 20 está reconduzida à
condição de sobrevivente, enquanto o ataque
avassalador vem agora do neopaganismo triunfante. A
sua influência manifesta-se precisamente no aspecto
que o autor antevira: o combate contra a família e a
vida humana. Belloc não tinha dúvidas em 1929 de que
o neopagão "toma o homem como um animal. Para já faz
do casamento um simples contrato civil dissolúvel
pelo consentimento de ambas as partes. Em breve terá
de o fazer dissolúvel pela vontade de apenas uma.
(...) Podemos dizer que a facilidade e frequência do
divórcio são o teste da medida em que uma sociedade
antes cristã avançou para o paganismo" (p. 137). É
impressionante o rigor fotográfico com que a nossa
sociedade foi retratada à distância.
Talvez o leitor queria tentar a sorte na
identificação dos recém-chegados. Belloc, pelo seu
lado, identificou na linha que traçara um hiato, uma
oportunidade inesperada: o embate da fé católica com
o neopaganismo pode ter o mesmo desfecho que na
Antiguidade teve o choque com a versão original.
"Não posso acreditar que a razão humana irá
permanentemente perder o seu poder. Ora a fé é
baseada na razão, e em todo o lado fora da fé o
declínio da razão é patente" (p. 167).