Entrevista a Alice Vieira "Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo
tem de ser divertido, nada pode dar trabalho" Bárbara Wong
É por causa dos seus livros que Alice Vieira é
convidada para ir às escolas. Há 30 anos, falava de
"Rosa, minha irmã Rosa" aos alunos dos 3.º e 4.º
anos, hoje fala sobre o mesmo livro aos estudantes
dos 7.º e 8.º. "Alguma coisa está mal"
A escritora Alice Vieira começa por dizer que de
educação percebe pouco. "Nunca fui professora na
minha vida!", justifica. Mas há três décadas que
anda pelas escolas e observa o que se passa no mundo
da educação. O retrato que faz, reconhece ser
"assustador": professores com fraca formação, alunos
que não compreendem o que aprendem. Defende mais
disciplina e mais autoridade para a escola. Quanto à
luta dos docentes confessa, bem disposta: "Saúde e
Educação seriam os ministérios que nunca
aceitaria!". Teme que se a contestação continuar o
ano lectivo possa estar perdido.
Esta é a segunda greve de professores, este ano
lectivo. Em que é que estas acções influenciam a
qualidade da escola pública? Os professores têm um calão muito próprio e
gostava que um professor e a senhora ministra da
Educação se sentassem e me explicassem o que é que é
a avaliação? O que é que os professores têm que
fazer? Para eu perceber! Os professores dizem que
têm muitas fichas para preencher. Que tipo de
fichas? O que é que a ministra quer fazer com
aquilo?
Sente que a opinião pública tem as mesmas
dificuldades em compreender o que se passa? A maior parte não compreende e os professores
queixam-se disso mesmo. Eu não quero acreditar que o
que se passa é como aquela anedota, em que "todos
vão com o passo errado e só o meu filho é que vai no
passo certo". O descontentamento é geral e quando
140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que
devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que
tenho, desde o princípio é de que a ministra tem
razão em querer que os professores sejam avaliados,
mas ela não sabe transmitir o que quer.
Isso reflecte-se no modo como as negociações têm
sido conduzidas? Sim, é visível nos vai-e-vem. Agora avalia-se
assim e depois já é de outra maneira... As pessoas
não sabem muito bem o que é ou não é. A ideia que
passa é que os professores não querem trabalhar, que
não querem ser avaliados e é fácil veicular essa
ideia porque os professores são um grupo complicado.
Porquê? Porque chegam a uma certa altura da carreira,
têm os seus direitos adquiridos e é mais difícil
aceitar outras coisas. Chega-se a uma altura em que
as pessoas estão cansadas.
Sente isso nas escolas aonde vai? A primeira coisa que ouço dizer é: "Estou
cansada", "vou-me reformar", "estou farta disto",
"não me pagam para isto"... É só o que eu ouço.
Mas sempre ouviu esses lamentos ou agudizaram-se
nos últimos anos? Há 30 anos que vou às escolas e ouço-o agora. As
leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá
gosto ver o trabalho que os professores fazem, que
estão motivados e a ministra é a mesma! Não é a
totalidade das escolas, mas sobretudo nas mais
afastadas, nas do interior, encontro gente motivada
e a fazer bons trabalhos. Essas escolas nem vêm no
ranking das melhores. Também vou a privadas, ligadas
à Igreja Católica, às vezes converso com professoras
minhas amigas e conto-lhes: "Os alunos entram em
fila, ou levantam-se quando eu entro, não fazem
barulho...". E respondem-me: "Está bem, mas isso é
nessas escolas". E eu pergunto: "Mas se está bem
para essas escolas, porque é que não está para as
outras?!"
A escola pública está a perder qualidade? Há um desinteresse, um cansaço e depois há o
problema da formação. Eu não quero generalizar, mas
esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem?
Converso com professores e é um susto, desde a
língua portuguesa tratada de uma maneira desgraçada,
até ao desconhecimento de autores que deviam ter a
obrigação de conhecer... Sabem muito bem o eduquês,
mas passar além disso, é difícil. Muitos professores
com que lido têm uma formação muito, muito, muito
deficiente. Eles fazem com cada erro, que eu fico
doida! E não só falam mal como se queixam diante dos
miúdos. Podem dizer mal entre eles, mas não diante
dos alunos, que depois reproduzem e a balda vai ser
completa. A responsabilização dos professores é
fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem
que os professores não são seguros.
E por isso há atitudes de indisciplina e de
violência? Por exemplo, as manifestações dos miúdos também
me perturbam um bocadinho, porque eles não sabem o
que andam ali a fazer. Os miúdos devem aprender a
falar bem, para saber reclamar, reivindicar, é uma
questão de educação.
Mas nesse caso a culpa não é da escola, pois não? Também é. Os professores queixam-se muito que
têm de ser pai, mãe, assistente social,
educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é
na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de
educação, o simples "obrigada, se faz favor,
desculpe". Quando os alunos vêem os professores na
rua, a berrar e a gritar, o que é que eles pensam?
Os alunos manifestam-se para exigir melhor ensino?
Não. Não os vejo preocupados porque os professores
os ensinam mal.
Com alunos e professores na rua, o ano lectivo
está perdido? Não me parece que esteja perdido, se houver bom
senso. Não se pode estar a brincar. As pessoas não
entendem muito bem que o maior investimento que
podem fazer é na educação. Se não tivermos gente
educada, a saber, capaz, o que é que vai ser de nós?
Estamos a fazer uma geração que não se interessa,
não sabe nada, mas berra e grita. E isso
perturba-me.
Volto a perguntar, a educação está a perder
qualidade? Eu comecei a ir às escolas há 30 anos, para
apresentar o meu primeiro livro "Rosa, minha irmã
Rosa" e ía falar com os alunos de 3.º e 4.º anos.
Agora vou, exactamente com o mesmo livro falar a
alunos dos 7.º e 8.º anos. Alguma coisa está mal. É
assustador! Outra coisa assustadora é a utilização
da Internet.
Não concorda com o acesso dos mais novos às novas
tecnologias? Estamos a queimar etapas, a atirar computadores
para os colos dos miúdos quando não sabem ler nem
escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio
da língua e da escrita.
E os mais velhos? Os mais velhos, não sabem utilizar a Internet,
não sabem pesquisar, eles clicam, copiam e assinam
por baixo. Eu chego a uma escola, vou ver e fizeram
50 trabalhos sobre um livro meu, todos iguais, com
os mesmos erros e tudo, porque descarregam da
Internet. Pergunto aos professores e respondem-me:
"Mas eles tiveram tanto trabalho a procurar..." O
professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes,
estou a falar com os alunos e tenho a sensação
nítida de que não estão a perceber nada do que eu
estou a dizer.
Essa sensação é generalizada? No geral, as crianças têm muitas, muitas
dificuldades. E os professores, logo à partida, têm
medo que os alunos se cansem e nem tentam! "O quê?
Dar isso? Eles não gostam, cansam-se". Há um medo de
cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido
muito cobaias da educação. E os professores e os
alunos não sabem muito bem o que é que andam a
fazer... Aconteceu uma coisa terrível é que tudo tem
que ser divertido. Há duas palavras que me põem fora
de mim: moderno e lúdico! Tudo tem que ser lúdico,
tem de ser divertido, nada pode dar trabalho. Não
pode ser!
É preciso mudar a mensagem? Quando vou às escolas esforço-me imenso por
transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho. E
eles olham para mim como se fosse uma coisa
terrível. Há muitas maneiras de se abordar as
coisas, mas se os próprios professores passam a
mensagem de não querer ter trabalho... Quando vou ao
estrangeiro, vejo os professores e penso "se fosse
em Portugal, não era assim". Eles fazem o que for
preciso fazer. Cá dizem que não é da sua
competência... Isso é complicado.
Disse que as escolas do interior são diferentes
das de Lisboa. Essas diferenças não se devem aos
públicos que cada escola acolhe?
Sim, os miúdos de Lisboa têm mais solicitações, ao
passo que para os de Trás-os-Montes, a ida de um
escritor à escola é uma festa! Em Lisboa já não há
lisboetas, há miúdos de todas as terras, de todos os
países... E porque é que os miúdos da Europa de
Leste se destacam nas escolas? Porque vêm de
culturas de trabalho e, desde cedo, ouvem dizer que
têm quee trabalhar. Com a democracia, as portas
abriram-se, a escola deixou de ser de elite e estão
todos na escola. Ainda bem! Mas os professores não
estavam preparados para isso e admito que é difícil.
Falta-lhes formação? Eu gostava de saber onde é que os professores
são formados! Mas tendo alunos tão diferentes é
necessário fazer formação. Porque, coitados dos
professores, são deitados às feras! Como se chega
aos alunos? Muitas vezes, olho para eles e vejo que
não estão a ouvir nada. E eu apanho o melhor da
escola, a parte boa, não tenho um programa para dar.
Agora, quem está todos os dias na escola, compreendo
que seja um stress terrível. A educação é daquelas
matérias em que, se calhar, são precisas medidas
impopulares, mas necessárias. Na educação nunca se
fez um salto, que é necessário, nunca houve um
ministro de quem se diga "fez".
É precisa mais disciplina? É preciso mais autoridade, o professor não pode
fazer nada, não tem autoridade nenhuma. A solução
passa por mais interesse e mais disciplina. O gosto
pelo que se faz. E o professor tem que sentir esse
gosto e passar aos miúdos. A profissão é de risco,
de missionário e não de funcionário público na
acepção perjurativa da palavra. Não é uma profissão
como as outras e não é seguramente a de preencher
impressos...
Como é exigido na avaliação? Voltamos à avaliação! Ela é necessária, todos
nós devemos ser avaliados, mas não pelo parceiro do
lado ou pelo filho do patrão! Não faço ideia de como
é que se avalia, mas na educação existe gente
competente, que estudou, e devia ser chamada para
dizer como avaliar. Não concordo que sejam avaliados
entre eles. Não se pode ser irredutível, quer dum
lado [professores] quer do outro [ministério]. As
manifestações, no momento a que se chegou, não levam
a nada, já vimos que agita, mas não levam a nada.
Parece-lhe que o conflito entre ministério e
professores não tem fim à vista? Os professores estão cansados, o que também é
mau, porque aceitar uma situação só porque já se
está cansado não é bom. Tem de haver uma solução,
senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só
um.