O perigo da ilusão realista João César das Neves
Professor universitário
Todos se lembram de no Verão passado os jornais
assegurarem com absoluta certeza que por esta altura
estaríamos com graves carências alimentares mundiais
e fome em largas regiões. Passaram poucos meses e a
previsão falhou completamente. Não há faltas e os
preços caíram para menos de metade. Ninguém parece
estranhar a discrepância.
Previsões destas não vêm da realidade. Não resultam
de análises científicas, que não existiam, nem
sequer dos potenciais esfomeados, pois aos pobres
ninguém ouve. Quem gritava eram organizações
humanitárias internacionais que, preocupadas com os
preços alimentares, usavam os medos da opinião
pública para pressionar os governos a subir-lhes o
orçamento. Com a descida posterior dos preços o
cenário catastrófico pôde ser arquivado. Outros
interesses passaram a ocupar os media.
Tantos se assustaram tanto, todos acusaram os
responsáveis, para agora tais temores estarem
esquecidos. Mas os críticos não se sentem aliviados.
Limitaram-se a mudar de susto, baseados nas novas
previsões de catástrofe que os mesmos jornais
trazem. Aliás, até culpam os mesmos políticos pelos
novos terrores antecipados.
O mais curioso é que, apesar de falharem
redondamente, os meios informativos não perdem
credibilidade. São as mesmas publicações, os mesmos
especialistas e comentadores que agora assustam o
mundo com novas antevisões de calamidade, granjeando
a adesão e convencimento de sempre. O que quer que
digam, a gente acredita. Quando a crise se mostrar
menos grave que os pânicos apregoados, ninguém
desconfiará de quem os divulgou e esperarão com
ansiedade os novos oráculos.
Afirmamos viver na "era da informação" e é verdade.
Mas seria bom considerar a relevância da
comunicação. Pensando bem, sobre as coisas que
realmente interessam, sabemos menos que os nossos
antepassados. Antigamente vivia-se na aldeia e todos
conheciam tudo sobre todos. As casas tinham portas
abertas e paróquia, botica ou barbeiro eram
excelentes meios noticiosos. Hoje, com o anonimato
urbano e privacidade escrupulosa, o nosso
conhecimento é mínimo sobre o que nos afecta
directamente. Mas sabemos imenso sobre coisas
irrelevantes. Guerras e eleições longínquas,
intrigas e conspirações mirabolantes e vasto sortido
de desastres e calamidades constituem a dieta
informativa quotidiana. Pensando bem, essas coisas
não valem mesmo nada para a nossa vida.
O presidente americano tem muito menos influência na
nossa existência que o presidente da Junta de
Freguesia, mas vibrámos meses com a eleição de Obama
e ignoramos até o nome do autarca local. Depois
inventamos ficções, como a tese da "aldeia global",
para justificar a nossa preferência informativa.
O motivo deste enviezamento é óbvio: a campanha do
outro lado do Atlântico é muito mais divertida que a
rotina prosaica. O nosso interesse pela informação
não vem da necessidade de conhecimento, mas de um
desejo lúdico. A realidade é profundamente
rotineira, exigente, complicada, maçadora. Por isso
desde as origens da raça humana foi grande a
popularidade de mitos, epopeias, aventuras e
romances. Mas esses tinham o defeito de serem
fictícios. A era da informação, globalizando o
âmbito, resolveu o dilema. Há sempre qualquer coisa
interessante a acontecer no mundo. Os noticiários
são reais e ao mesmo tempo fascinantes, com emoção,
seriedade e violência. Apesar de, em geral, serem
totalmente irrelevantes para nós.
A notícia não é ilusão, mas também não constitui
conhecimento útil, porque distante. Mas, ao discutir
esses magnos problemas planetários, cada um sente-se
sábio e importante. No nosso sofá parece-nos, de
alguma maneira, participar nesses assuntos
grandiosos e decisivos.
Isso leva a mal-entendidos. No Verão passado todos
sentimos a discrepância entre o preço pago na bomba
de gasolina e o que os jornais diziam sobre o custo
do barril de brent. Muitos protestaram e acusaram,
mas sem notar que o primeiro era um valor directo,
real, influente, enquanto o outro era um índice
remoto, abstracto, efectivamente irrelevante.