Excedente de casas mantém-se até 2050, conclui
investigação Sara Dias Oliveira
Tese de mestrado revela que não haveria mais de duas
pessoas debaixo do mesmo tecto, se o parque
habitacional estivesse inteiramente habitado
Em 2006 já havia habitações suficientes para
albergar as famílias que vão surgir em 2050. Há dois
anos, os dados revelavam um total de 4.502.934
alojamentos ocupados e vagos para a população
portuguesa. E no início do século XXI, verificou-se
que 176.811 alojamentos seriam suficientes para
responder às carências habitacionais do país, quando
havia 185.509 casas disponíveis no mercado para
venda ou aluguer. Em 2001, viviam no país 10,36
milhões de pessoas organizadas em 3,65 milhões de
famílias e o parque residencial era de 5,05 milhões
de habitações, das quais 72,7 por cento eram
residências habituais e as restantes segundas casas
ou estavam desocupadas. Nessa altura, mais de 75 por
cento das famílias viviam em habitação própria, 21
por cento em casas alugadas e 4 por cento em
habitações cedidas.
"Supondo que a parte das residências principais e
dos alojamentos vagos no parque de alojamentos
permanecerá estável, podemos afirmar com alguma
certeza que se manterá o excedente habitacional em
Portugal", conclui Fátima Moreira, técnica na área
das estatísticas da construção do Instituto Nacional
de Estatística (INE), no seu trabalho de mestrado O
Envelhecimento da População e o Seu Impacto na
Habitação - Prospectiva até 2050, do Instituto
Superior de Estatística e Gestão de Informática da
Universidade Nova de Lisboa. Em 2006, estimava-se um
total de 3.361.210 edifícios de habitação familiar
clássica e 5.519.654 alojamentos familiares
clássicos para um país com 10.559.09 de pessoas.
"Este parque habitacional é relativamente abundante,
quando comparado com o número de habitantes. Se
fosse inteiramente habitado, cada alojamento não
albergaria mais que duas pessoas sob o mesmo tecto",
constata.
As conclusões baseiam-se nos dados das projecções
dos Living Arrangements e das famílias até 2050, dos
elementos disponíveis sobre as estimativas de
alojamentos familiares em 2006, bem como dos Censos
de 2001. A investigadora analisou a evolução da
população para estimar que, em 2050, as famílias de
casais sem filhos deverão representar entre 22,7 e
28,5 por cento da população portuguesa e que haverá
um aumento muito acentuado da população idosa, um
acréscimo que rondará os 80 por cento nas pessoas
com mais de 75 anos. "O cruzamento de dados
demográficos com dados sobre habitação revela-nos
que os alojamentos existentes têm crescido nos
últimos anos, mesmo em regiões que registaram perdas
populacionais." "Sabe-se que haverá, claramente, um
aumento do número de famílias e também se sabe que a
construção tem sido muito mais veloz do que a
alteração no seio das famílias que determina o seu
aumento", acrescenta.
Construção "adaptativa"
A tese de mestrado revela ainda que o número de
habitações praticamente duplicou nas últimas três
décadas, colocando Portugal no segundo lugar com
maior rácio de habitação por agregado familiar da
União Europeia. "O parque habitacional português
tornou-se um parque de proprietários com encargos,
tendo-se generalizado o acesso à habitação própria.
O país e os portugueses parecem, assim, ter
concentrado grande parte dos seus recursos
financeiros em investimento especulativo, adquirindo
novos fogos que demasiadas vezes ficam sem uso, à
espera de mais-valias", explica.
Fátima Moreira defende que é necessário repensar a
questão da habitação, tendo em conta as famílias do
futuro e a procura potencial de habitação. Há novas
realidades a que convém dar resposta. "As
preocupações devem orientar-se particularmente para
a regeneração urbana e, dependendo da gravidade,
para tentativas de estabilização dos mercados
habitacionais." Na sua opinião, deveriam ser feitos
estudos de diagnóstico para avaliar quais os locais
onde se verifica um défice ou excedente
habitacional. Analisar as carências qualitativas da
habitação e pensar a requalificação do parque
habitacional são outros dos caminhos que aponta.
"Esta problemática não deve ser confinada aos
centros tradicionais e mais valorizados, devendo, em
paralelo, abranger todas as regiões, incluindo
aquelas onde, com frequência, os problemas de
degradação não residem necessariamente nas
habitações, mas nas condições de vida social ou do
ambiente", realça.
As necessidades quantitativas e qualitativas da
habitação devem também ser tidas em atenção. "Dentro
de alguns anos, estaremos num país em que as pessoas
com 75 e mais anos representam 17,1 por cento da
população total, face aos 6,8 por cento em 2001."
"Torna-se indispensável a adequação dos alojamentos
a necessidades especiais e que advêm das pessoas
idosas e com necessidades especiais, num contexto de
aumento da esperança de vida com incapacidade."
Atendendo às alterações nas famílias e ao
investimento na aquisição de habitação, Fátima
Moreira defende que é preciso repensar "a construção
de forma 'adaptativa', adaptada aos diferentes
estádios da vida das pessoas". "Há que atender às
necessidades objectivas das famílias. Esta deve ser
uma prioridade nas localidades onde essa oferta está
aquém da procura e ou das necessidades", remata.
4.502.934
é o número de alojamentos ocupados e vagos para a
população portuguesa apurados há dois anos
185.509
é o número de casas disponíveis no mercado português
para venda ou aluguer há dois anos
2º
é o lugar de Portugal no ranking dos países da União
Europeia com maior rácio de habitação por agregado
familiar
22,7
é a percentagem mínima da população que, estima-se,
em 2050, será constituída por famílias de casais sem
filhos