Público - 11 Jan 06
Lei da reprodução pode estar pronta daqui a um mês
Ana Machado
Especialistas esclareceram os
deputados que vão reunir num só diploma as várias
propostas já aprovadas em plenário
São mais os pontos que unem os
diferentes projectos de lei sobre a reprodução
medicamente assistida na Assembleia da República do
que aqueles que os afastam. Se houvesse uma
conclusão a retirar do colóquio organizado pela
comissão parlamentar de saúde, ontem e hoje, essa
seria a principal. Mas os poucos pontos em que os
diplomas divergem são fracturantes: os especialistas
e os políticos reconhecem que são os mesmos há mais
de 20 anos e que o consenso é difícil, apesar de
acreditarem que uma lei é possível, talvez dentro de
pouco mais de um mês.
"Os quatro projectos de lei em apreciação sobre
reprodução medicamente assistida (RMA) fazem-me
lembrar os pontos de divergência em relação às
recomendações que o Conselho da Europa fez há mais
de 20 anos", recordou Luís Archer, padre jesuíta e
geneticista, antigo presidente da Comissão Nacional
de Ética para as Ciências da Vida. "Dos 21 pontos do
documento final, apenas em três não foi possível o
consenso. Imaginem quais eram: fertilização com
recurso a gâmetas [espermatozóides e ovócitos]
doados, a maternidade de substituição e a
experimentação em embriões." Hoje são os mesmos
pontos de divergência que ensombram um consenso
sobre uma lei da RMA.
Portugal não tem legislação nesta área, mas nunca
esteve tão perto de tê-la, desde que nasceu o
primeiro bebé-proveta português em 1986. Quatro
partidos - PSD, PS, PCP e Bloco de Esquerda - viram
os seus projectos sobre a RMA aprovados em Outubro,
na generalidade.
Ana Drago, deputada do Bloco de Esquerda, explicou
ao PÚBLICO que não é muito comum este consenso para
que todos os diplomas passem à discussão na
especialidade, em sede de comissão parlamentar, que
é a fase em que actualmente se encontram os
diplomas.
Os contornos de cariz científico, ético e cultural
que envolvem a RMA levou a que Maria de Belém
Roseira (PS), enquanto presidente da comissão
parlamentar de saúde, decidisse convidar cerca de
uma dúzia de médicos que praticam a RMA, bem como
geneticistas, juristas e eticistas, para
esclarecerem os deputados sobre os contornos de um
assunto sobre a qual vão ter de decidir.
António Pereira Coelho, médico pioneiro da RMA em
Portugal, Paula Martinho da Silva, jurista e actual
presidente do Conselho Nacional de Bioética para as
Ciências das Vida, Alberto Barros, especialista em
reprodução humana, ou António Coutinho, director do
Instituto Gulbenkian de Ciência, foram alguns dos
especialistas que responderam ao apelo para ir à
Assembleia da República.
Depois deste colóquio, com o título Procriação
medicamente assistida, implicações éticas, sociais e
legais, espera-se que os deputados consigam compilar
as várias propostas num só diploma, que será
finalmente votado de novo em plenário e que Ana
Drago acredita que ainda vai chegar à mesa de Jorge
Sampaio antes do final do seu mandato como
Presidente da República, em Março.