Público - 10 Jan 06

Estudo científico

Faltam dez milhões de meninas na Índia, devido ao aborto selectivo

Ana Machado

Artigo na revista The Lancet alerta para os perigos sociais da selecção de sexos por preferência cultural no subcontinente indiano

Nos últimos 20 anos, desde que as ecografias começaram a ser acessíveis na Índia, podem ter sido feitos dez milhões de abortos selectivos de bebés do sexo feminino. Esta conclusão é de uma equipa que analisou a informação recolhida por um censo sobre mortalidade e fertilidade feito na Índia em 1998.
Em todo o mundo, nascem menos raparigas que rapazes, numa relação de 488 meninas para 512 meninos, em cada 1000 nascimentos. Mas o que se passa na Índia é algo muito diferente. Se a realidade daquele país seguisse a lógica demográfica do resto do mundo, então teriam nascido entre 13,6 milhões a 13,8 milhões de raparigas em 1997, mas nasceram menos cerca de 500 mil meninas do que era de esperar, só naquele ano, diz um artigo publicado na revista médica The Lancet.
A equipa de Rajesh Kumar, do Instituto de Educação e Investigação de Chandigarh, na Índia, e Prabhat Jha, do Hospital de St Michael, na Universidade de Toronto, (Canadá), analisaram os dados recolhidos no censo sobre fertilidade e mortalidade, realizado em 1998, referente à realidade indiana de 1997.
"Apesar de ser necessária mais investigação, a explicação mais plausível para o diminuto número de nascimentos de raparigas em relação ao de rapazes é a determinação do sexo seguida de aborto selectivo", escreve a equipa. Os investigadores colocaram ainda outras hipóteses, como infecções, tabaco ou má nutrição das mães, mas não vingaram
Na Índia, onde ter uma filha é visto como um fardo social e económico, porque os pais têm de pagar um chorudo dote para a casar, é proibida a escolha do sexo do bebé, durante a gestação, desde 1994. E os médicos estão proibidos de dizer à família qual o sexo do bebé, numa fase precoce da gravidez.
Mas Rajesh Kumar e Prabhat Jha alertam para o facto de estas práticas continuarem, apoiadas clandestinamente por médicos, que fazem ecografias e praticam técnicas invasivas, como a amniocentese (recolha de líquido amniótico) nas primeiras semanas de gestação, para dizer aos pais se vão ou não ter um rapaz. Esta má prática médica leva a que as mulheres abortem quando sabem que estão grávidas de meninas.

Sociedade desequilibrada
"Se tivermos em conta os números apurados no estudo demográfico de 1998, e se tivermos em conta que a determinação do sexo e o aborto selectivo foi facilitado com o aparecimento da ecografia nas últimas duas décadas, então acho possível arriscar que a Índia pode ter perdido dez milhões de meninas ", concluem.
Para Mário Bandeira, especialista em demografia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, a factura a pagar pelo desequilíbrio entre sexos no nascimento, é grande: "Há um alteração estrutural das relações de masculinidade e uma diminuição de casamentos, da fertilidade e da natalidade. No geral, há uma tendência para uma sociedade desequilibrada."
Mas Mário Bandeira afirma que este não será um problema exclusivo da Índia, no futuro, mas também do mundo ocidental, onde cada vez mais os casais optam por ter um único filho e onde as técnicas de manipulação genética oferecem cada vez mais a possibilidade de escolher o sexo do bebé. E a maioria quer ter um rapaz.

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