Público - 30 Jan 04

Vaticano Acusa Farmacêuticas de "Genocídio" no Combate à Sida em África
Por ANTÓNIO MARUJO

O Vaticano condenou ontem a acção das grandes multinacionais farmacêuticas que recusam fornecer medicamentos para tratar crianças vítimas de sida, nomeadamente em África. Acusando essas empresas de "genocídio", altos responsáveis da Santa Sé referiram que "pelo menos 400 pessoas morrem diariamente no Quénia por causa da sida" e pediram que haja pressão internacional para baixar o preço dos medicamentos.

Angelo d'Agostino, do Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP), falava durante uma conferência de imprensa de apresentação da mensagem do Papa para a Quaresma (o tempo litúrgico de preparação da Páscoa) deste ano. O documento, com o título "Quem acolher em meu nome uma criança, acolhe-Me a Mim", numa referência às palavras de Jesus Cristo, condena as situações em que os menores são "profundamente feridos pela violência dos adultos", citando também o desaparecimento de crianças vítimas do "ignóbil tráfico de órgãos e pessoas".

Números como os citados reflectem "a acção genocida do cartel das empresas farmacêuticas, que recusam fornecer os medicamentos mais acessíveis em África, ao mesmo tempo que declaram 517 mil milhões de dólares de lucros em 2002", disse Angelo d'Agostino, que tinha ao seu lado o arcebispo Paul Josef Cordes, presidente do CPJP.

D'Agostino, padre jesuíta, também médico de profissão e a trabalhar num orfanato de Nairobi, acrescentou que esta é "uma questão moral, que revela a falta de consciência social destas empresas capitalistas, que poderiam facilmente salvar as vidas de 25 milhões de pessoas que vivem na África subsariana, que são seropositivas e se arriscam a morrer de sida".

Paul Cordes criticou também a indústria farmacêutica mundial e apelou a que a pressão internacional obrigue os laboratórios a baixar os preços dos medicamentos contra a sida. "Essas crianças morrem porque não têm medicamentos. É preciso exercer uma pressão pública para convencer as empresas farmacêuticas a baixar os preços dos medicamentos para curar as vítimas da sida."

O arcebispo, de origem alemã, recordou ainda, de acordo com as agências, que há actualmente 2,5 milhões de crianças atingidas pela sida. Perto de 500 mil morreram, em consequência da doença, só no ano passado, e sobretudo em África. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 11 milhões de crianças africanas são órfãs, também em consequência da epidemia.

Na sua mensagem, o Papa afirma que muitas das crianças seropositivas são "contagiadas desde o nascimento". João Paulo II acrescenta que "a humanidade não pode fechar os olhos perante um drama tão preocupante" e cita outras realidades que atingem as crianças: "Abusos sexuais, prostituição, envolvimento na venda e no uso da droga; crianças obrigadas a trabalhar ou alistadas para combater; inocentes marcados para sempre pela desagregação familiar; pequenos desaparecidos pelo ignóbil tráfico de órgãos e pessoas."

O padre d'Agostino recusou entrar na questão da oposição do Vaticano ao uso do preservativo. "Culturalmente, os preservativos não são aceites por muitas tribos africanas", afirmou.

Na sua mensagem para os 40 dias que medeiam entre o Carnaval e a Páscoa, o Papa enaltece as mães e os pais se preocupam em educar os filhos, bem como os que se dedicam à formação da infância, em situações de conflito e violência, de falta de alimentos ou água, de emigração forçada ou de injustiça.

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