Fórum da Família - 21 Mar 03

Debate científico e confusão mediática

             Um artigo publicado na revista “Science” deitou um balde de água fria sobre as possibilidades terapêuticas das células embrionárias na luta contra os diabetes. Até agora várias equipas científicas tinham conseguido desenvolver, a partir de células embrionárias e adultas, células b do pâncreas produtoras de insulina, as quais poderiam substituir as células disfuncionais do paciente.

            Em Espanha, a equipa de Bernat Soria anunciou que, com este sistema, tinha conseguido eliminar os sintomas da doença em ratos aos quais fora induzido diabetes.

            Agora, o artigo dos biólogos Douglas Melton e Jayrak Rajagopal, da Universidade de Harvard, conclui que as células especializadas obtidas a partir de células embrionárias não produzem realmente insulina, dado que absorvem esta hormona do meio circundante e vão-na libertando ao longo de várias semanas. Quer dizer, as células embrionárias não se transformariam em células b produtoras de insulina. Não dizem que seja impossível fazê-lo, mas por agora não se sabe como.

            O seu estudo contradiz outras experiências e será também debatido. Nada disto é de estranhar. A ciência procede segundo métodos de ensaio e erro. Por vezes, linhas promissoras de investigação revelam-se infrutuosas e outras vezes obtêm-se resultados por caminhos inesperados.

            O pior é quando a ciência se enreda em disputas políticas. Assim aconteceu em Espanha relativamente a este assunto, quando Bernat Soria denunciou que a sua promissora linha de investigação fora travada porque o governo não permitia utilizar embriões humanos para obter células embrionárias. Com ares de um novo Galileu, considerou-se encurralado por um poder que impedia o progresso da ciência, devido a princípios religiosos.

            O Partido Socialista, que encontrou aqui uma oportunidade de desgastar o governo, levantou a bandeira da investigação com embriões. A Junta de Andaluzia ofereceu refúgio a Bernat Soria num centro de investigação de Sevilha, no qual poderia desenvolver as suas investigações com células embrionárias. Nesta disputa, foi mobilizada também a Federação dos Diabéticos, vendendo-lhes a ideia de que as suas expectativas de cura estavam a ser frustradas por motivos ideológicos, e que se deveria pressionar os políticos para que autorizassem a investigação com embriões humanos.

            Acontece que a linha de investigação da equipa de Bernat Soria, e de outros, pode ser infrutífera, não por motivos ideológicos nem religiosos, mas puramente científicos. O tempo e a investigação di-lo-ão.

            Este episódio ensina como é pernicioso absolutizar uma linha de investigação, sobretudo quando – como acontece no caso dos diabetes – existem outras em campo que não exigem a eliminação de embriões humanos e dão resultados mais alentadores. É lamentável utilizar os doentes num debate científico, com a base emotiva do “como é possível negar-me a cura?”, quando a cura nem sequer existe.

            Esta confusão político-mediática não é um bom caldo de cultura para o avanço da ciência, que precisa de silêncio no que toca aos laboratórios.

 Fonte: Aceprensa (Serviço 16/03)