Fórum da Família - 27 Fev 03

Relação aborto-cancro na mama é credível

 

(Depoimento da Drª Angela Lanfranchi *)

 

            Quando ouvi falar pela primeira vez da relação entre aborto e cancro da mama, em 1993, julguei que se tratava de uma fantasia pró-vida. “Estão loucos”, foi o meu juízo primário. Apesar disso, modifiquei a minha forma de trabalhar como cirurgião da mama, questionando cada mulher sobre a sua gravidez e a sua trajectória. Os resultados surpreenderam-me.

            Nos primeiros seis meses tive duas doentes na casa dos 30 anos com cancro na mama; uma teve sete gravidezes e seis abortos e a outra cinco gravidezes e três abortos. Continuei a ver mais mulheres jovens, com antecedentes de aborto, a desenvolver cancro na mama. Claro que poderia estar diante de um acaso estatístico.

            Em 1996, o professor Joel Brind, da Universidade de Nova York, publicou a sua meta-análise, que revelou que 23 em 28 estudos demonstravam uma relação entre aborto e cancro na mama. O alvoroço que tal estudo provocou na Grã-Gretanha, onde foi publicado no “Journal of Epidemiology and Community Health”, levou o editor a escrever: “Admito que todos aqueles que, como eu, têm convicções “pró-escolha”, precisam de, ao mesmo tempo, desenvolver uma apreciação que pode ser chamada “pró-informação”, sem excessivas censuras paternalistas aos dados”. De censura paternalista foi a minha experiência todas as vezes que tentei falar nos meios científicos sobre a relação aborto-cancro na mama.

            Cerca de 85% dos fumadores não chegam a fazer cancro no pulmão. Os médicos que advertem os seus pacientes fumadores do risco de cancro nos pulmões não são considerados “mercenários do medo”. De igual modo, nem todas as mulheres que fizeram abortos padecerão de cancro na mama: apenas 5%. E 95% das pacientes com cancro na mama não terão um historial clínico de aborto. Mas algumas mulheres têm um elevado risco de o contrair. E 5% são muitas mulheres.

            Um estudo publicado em 1994 no “Journal of the National Cancer Institute” mostrou que jovens com menos de 18 anos, que abortaram entre as 9 e as 24 semanas, têm cerca de 30% de probabilidade de contrair cancro na mama durante a vida. A página web de “US National Cancer Institute”, sobre riscos reprodutivos, informa as mulheres que existem estudos que demonstram essa relação.

            Muitas pessoas interrogam-me acerca dos abortos espontâneos durante o primeiro trimestre. Trata-se de um caso diferente, no que toca aos efeitos sobre os seios femininos, do aborto provocado sobre uma gravidez normal. O aborto espontâneo não aumenta o risco de cancro na mama, dado que está associado a baixos níveis de estrogénio e não desenvolve cancro. No entanto, quando a gravidez termina antes das células mamárias alcançarem a sua plena maturidade, a mulher adquire mais lóbulos mamários dos tipos 1 e 2 (glândulas lácteas) que antes do início da gravidez, pelo que esse risco aumenta. Os seus seios não amadureceram os lóbulos 3 e 4, o que aconteceria no terceiro trimestre e diminuiria tal risco.

            A ideologia não deveria impedir a divulgação destas informações. As organizações australianas não ajudam as mulheres a exercitar um consentimento informado, sempre que lhes negam o conhecimento destes dados. Há 3 acções judiciais em curso nos EUA, interpostas por mulheres não advertidas para este risco antes de abortarem.

            Tenho 3 irmãs com cancro na mama e fico ofendida com as pessoas que manipulam os dados científicos em favor dos seus intuitos, sejam pró-vida ou pró-aborto. Gostava de não encontrar qualquer associação entre aborto e cancro na mama, mas as nossas investigações são sólidas e os nossos dados exactos. Não é uma questão de acreditar. É uma questão de constatar.

            A informação dá às mulheres a capacidade de fazerem escolhas informadas. As mulheres que optam pelo aborto precisam de estar alerta contra elevados riscos, fazendo mamografias mais cedo e com mais regularidade. Os cancros detectados em mamografias têm maior probabilidade de se encontrarem no estádio 1 e de serem curados. Nenhuma mulher deveria morrer com cancro na mama por não ter sido advertida a tempo para tal risco.

            Vi a minha mãe morrer com metástases de cancro na mama. No exercício da minha profissão vejo mulheres jovens, com filhos pequenos, morrer de cancro na mama. Se a informação que eu presto às minhas pacientes evitar uma morte que seja, com grande alegria pago o preço de ser considerada “mercenária do medo”.

 

* Cirurgião da mama; membro do “American College of Surgeons”; professor assistente de Cirurgia no “Robert Wood Johnson Medical School” em New Jersey

 

            Fonte: The Age (Australia); Pro-Life Infonet