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Fórum da Família - 27 Nov 03
Vida, Revisão Constitucional e Eleições
Foram encerradas, há cerca de
duas semanas, as negociações entre os partidos da coligação governamental sobre
um projecto comum de revisão constitucional.
Um dos pontos em
negociação constava de uma formulação proposta pelo CDS no sentido de ver
consagrado na Constituição o direito à vida e sua inviolabilidade desde o
momento da concepção, o que tenderia a inviabilizar futuros referendos sobre o
aborto.
No entanto, tal
proposta ficou pelo caminho em consequência da contestação de alguns elementos
sociais-democratas. Ora, a Constituição afirma que a vida humana é inviolável. O
problema é que não diz desde quando nem até quando, nem sequer o que entende por
vida humana. De forma que, assim, podemos dizer que somos civilizados porque
está lá escrito que a vida humana é protegida, ao mesmo tempo que se abrem as
excepções que forem precisas, à imagem e semelhança das conveniências, e assim
podemos dizer que acompanhamos a modernidade. Fantástico! Com uma interpretação
tão lata da lei, é o que se quiser: até a quadratura do círculo. Ou seja, a vida
humana não é inviolável.
O vice-presidente da
bancada parlamentar do PSD justificou a recusa da formulação no projecto comum
com o facto de “existirem matérias que estão para além da ideologia
político-partidária, sendo da consciência de cada um”, acrescentando que o PSD
desde 1980 “dá liberdade aos deputados em matéria de aborto e não pode através
da Constituição delimitar as consciências individuais”.
Se existem matérias
que estão para além da ideologia político-partidária – será que a obrigação de
pagar impostos também está? – isso significa que as categorias políticas e
partidárias não têm competência nem meios para ajuizar sobre tais matérias – o
início da vida humana – o que quer dizer que não pode mais do que ter dúvidas
sobre o assunto. Nesses casos, manda a lógica e a ética que não se legisle sobre
aquilo que não se sabe nem se tem capacidade para saber. Na dúvida não se actua.
In dubio pro reo. E
neste caso o réu até é inocente.
Ainda assim, o deputado popular Diogo Feio
considerou que “a solução encontrada satisfaz os interesses dos dois partidos”,
palavras que não deixam de ser sugestivas: “os interesses dos dois partidos”.
De facto, apesar de
alguns elementos do PSD terem impedido a formulação que explicitava a protecção
da vida humana desde a concepção, passou a constar do projecto uma proposta
sobre a “protecção da vida”, o que é tido por alguns observadores como um bom
resultado.
Remetida que foi a
responsabilidade dos deputados, em matéria de aborto, para a sua consciência
individual, a consequência lógica de tal atitude será obrigar os candidatos
eleitorais a definirem-se em matéria de aborto, de direito e início da vida
humana. Tais candidatos – de todos os partidos – hão-de ser questionados e
confrontados com a sua consciência individual para não comermos mais gato por
lebre.
Deverá assistir-nos
o mérito e a obrigação – mais do que o direito – de saber como pensa e como faz
cada um dos candidatos, nesta matéria. Trata-se de saber como é que a
consciência individual dos deputados vai legislar e actuar no que não é
individual. Esse trabalho capilar te que ser feito. A começar já nas europeias.
Porque não o fazer é
um crime.

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