A confiança dos portugueses ganha-se falando verdade
Segundo uma sondagem recente, os portugueses são os
europeus que menos confiam nos políticos. Dizer mal
dos políticos é popular em Portugal. Mas em
Felgueiras, Gondomar e Oeiras não escolheram os
eleitores autarcas suspeitos de crimes?
O mal não é apenas dos políticos.
Mas os nossos políticos põem-se a jeito. O Governo
tardou a reconhecer o que entrava pelos olhos
dentro. Em Outubro previa para 2009 um crescimento
do PIB de 0,6 por cento. O PSD era apenas um pouco
menos optimista - previa 0,3 por cento positivos.
Quando o sistema financeiro se desmoronava e as
bolsas caíam a pique, Sócrates orgulhava-se de que
Portugal escaparia à recessão.
É verdade que a banca portuguesa quase não tem
activos "tóxicos". Mas como não perceber, ou fingir
não perceber, que uma brutal crise do crédito
afectaria duramente um país ultraendividado? Em
Portugal estão cheios de dívidas o Estado, as
empresas, as famílias e os bancos, que precisam de
ir ao estrangeiro buscar dinheiro caro e difícil
para o emprestar aos portugueses. Tudo isso se
traduz numa dívida externa cujo crescimento é
explosivo (adjectivo do Presidente da República),
representando uma pesadíssima hipoteca para as
gerações futuras.
Quando se tornou impossível não reconhecer a
gravidade da crise, a atitude do primeiro-ministro
mudou. Insistindo em que a crise vinha de fora, não
sendo da sua responsabilidade, apresentou-se como o
único capaz de proteger os portugueses dos efeitos
da recessão. A crise até dava jeito para justificar
algumas medidas impopulares.
Acontece que a crise nascida nos Estados Unidos e
logo tornada global veio, em Portugal, somar-se a
uma mais antiga crise estrutural interna. O país
tornou-se pouco competitivo. Daí o desequilíbrio das
nossas contas externas (mais de 10% do PIB),
significando que os portugueses, com os seus actuais
níveis de produtividade e consumo, estão a viver um
décimo acima do valor que produzem. Uma situação que
não pode durar.
Mas o Governo não fala deste problema de fundo. Para
não desanimar as pessoas? Desanimadas estão elas. O
primeiro-ministro prefere a propaganda. Quase todos
os dias aparece na televisão a anunciar uma
iniciativa, uma medida, uma obra (às vezes em
cerimónias mediáticas pagas pelas empresas
construtoras). E não distingue coisas realmente
úteis que o Governo tem feito de trivialidades
populistas. É significativo que, no congresso da
Associação Portuguesa de Empresas Familiares, um
empresário da estatura e do perfil ético de
Alexandre Soares dos Santos (Jerónimo Martins) tenha
dito que a crise é agravada pela "demagogia
intolerável do primeiro-ministro".
Se somarmos o cansaço da repetição dos argumentos
("nós actuamos, os investimentos públicos são a
resposta à crise", etc.) à perda de credibilidade
decorrente do anterior excesso de optimismo, é
duvidoso que a campanha propagandística do Governo
seja eficaz. Julgo, até, que ela começa a tornar-se
contraproducente.
Pelo meio disto, invocam-se campanhas negras contra
Sócrates. Não estou de acordo com muita coisa que a
comunicação social tem feito para embaraçar o
primeiro-ministro. Mas um estadista tem de saber
reagir com serenidade a essas contrariedades.
Recordem-se as campanhas de assassinato de carácter
contra Sá Carneiro ou contra Bill Clinton (ainda
antes do caso Mónica Lewinsky). Não me lembro de que
esses políticos se tenham vitimizado e reagido como
virgens ofendidas.
Pelo contrário, o actual nervosismo do PS e os seus
destemperados ataques à oposição só acentuam as
suspeitas. Como não é positivo que o Governo rejeite
liminarmente todas as propostas da oposição para
combater a crise, sem prejuízo de, depois,
aproveitar algumas dessas ideias que considerara
péssimas.
A confiança ganha-se falando verdade. Ora, como
Mário Soares lembrou, o Governo não tem explicado
bem algumas medidas anticrise, em particular na
banca, o que permite à demagogia da extrema-esquerda
afirmar que o Estado "ajuda os banqueiros".
Infelizmente, em matéria de verdade o
primeiro-ministro não tem dado bons exemplos
(lembre-se o relatório sobre educação atribuído à
OCDE, por exemplo). E as tentativas, legislativas e
não só, para condicionar a comunicação social não
contribuem para um clima de confiança no poder
político. Se existe, a tal "central de propaganda"
do Governo parece-me pouco competente. Jornalista