A nacionalização de mais bancos é uma possibilidade
cada vez menos longínqua
"Não há GPS para a crise, temos de nos guiar pelas
estrelas. O problema são as nuvens." Esta frase do
ministro Teixeira dos Santos originou inúmeros
comentários jocosos nos media e no Parlamento. No
entanto, a frase retrata fielmente a situação face à
crise. Uma crise que alguns, incluindo o Governo
português, desvalorizavam ainda há dois meses, mas
cuja gravidade está hoje à vista de todos.
Os ziguezagues sucedem-se. Angela Merkel criticou o
Governo irlandês por este garantir que não deixaria
falir bancos - e dias depois teve de salvar um banco
alemão. Merkel mostrou resistência a aumentar a
despesa pública para ajudar o sistema financeiro e
contrariar a crise económica, mas acabou por ter que
o fazer.
Nos Estados Unidos, o plano Paulson previa que o
Estado comprasse os activos "tóxicos" dos bancos.
Depois, ainda com Bush, Washington mudou de
estratégia e passou a dar prioridade à
recapitalização dos bancos com dinheiro do Estado
(solução adoptada por Gordon Brown na Grã-Bretanha e
geralmente acolhida na União Europeia). Agora, nos
EUA e na Europa está de novo na ordem do dia o
Estado comprar os "tóxicos" através de bancos a
criar para o efeito (bad banks).
Os governos britânico e americano já vão no segundo
plano para salvar o sistema bancário. E não chega. A
nacionalização de mais bancos é uma possibilidade
cada vez menos longínqua.
Entretanto, por toda a parte os bancos restringem a
concessão de novos créditos. Os políticos protestam,
mas os empréstimos tornaram-se difíceis e caros de
obter. Porquê, se o negócio bancário é emprestar
dinheiro a juros? Porque os bancos precisam de
fundos em quantidades astronómicas para
reconstituírem o capital após as perdas sofridas com
a desvalorização dos seus activos.
Aguardou-se com expectativa uma estratégia europeia
para combater a recessão. Mas não se vê uma
coordenação dos planos que cada estado-membro da UE
vai avançando. Nem sequer na zona euro. Pior: vários
desses planos (e não apenas o francês) incluem
medidas directa ou indirectamente proteccionistas,
pondo em causa o Mercado Único e, com ele, a própria
UE. Nos EUA foram notórias as hesitações e as
reservas na aprovação pelo Congresso americano do
plano de Obama para relançar a economia, apesar da
rapidez com que a crise se agravava.
Se quase ninguém nega a necessidade de intervenções
maciças do Estado nos mercados neste momento, também
se começam a perceber os inerentes custos, não
apenas financeiros. Os governantes conhecem mal os
mercados. Por isso cometem erros. Veja-se a Qimonda,
que os poderes públicos, em Portugal e na Alemanha,
procuraram ajudar, mas que o mercado pôs fora de
combate, com a concorrência asiática a baixar
drasticamente o preço dos artigos produzidos. O
Estado tem limitações quando faz de empresário.
O mais preocupante é não se ter já debelado a causa
imediata da recessão: a crise financeira. Evitou-se
o colapso em Outubro, é certo. Mas "o sistema
financeiro ainda está doente e ninguém sabe o que
fazer", disse ao Jornal de Negócios Kenneth Rogoff
(professor em Harvard e antigo chefe dos economistas
do FMI). Acrescentou Rogoff que já seria bom que os
planos anti-crise tivessem uns 15% de eficácia. Um
ano e meio depois de surgirem os primeiros activos
"tóxicos", "eles continuam no sistema bancário e
ninguém sabe quando os seus efeitos deixarão de se
fazer sentir", afirmou o secretário-geral da OCDE.
Na sexta-feira as acções do LLoyds caíram um terço
por causa da revelação de mais perdas. É uma crise
inédita, diferente das anteriores, incluindo da
Grande Depressão dos anos 30. Esta foi desencadeada
por uma euforia no mercado bolsista, seguida de um
crash, corrida aos bancos, etc. A actual é uma crise
do crédito. De um excesso irresponsável de crédito
fácil, que se transformou no seu oposto - falta de
crédito.
Quem diz ter soluções eficazes e seguras para a
crise financeira e para a crise económica é
inconsciente ou irresponsável. A única maneira de
tentar evitar o pior neste enorme nevoeiro de
incerteza é navegar à vista. Mesmo assim, nada
garante que o barco não encalhe.
Mas não se trata de navegar à vista de eleições,
distribuindo generosamente dinheiro dos
contribuintes para captar votos, com a desculpa da
crise. Esta é uma tentação à qual o nosso Governo
ainda não deu sinais de resistir. Jornalista