Não parece um método tranquilizante da sociedade
civil o anúncio da evolução estatística da
criminalidade, sobretudo quando insiste em débeis
percentagens de crescimento. As médias dizem pouco
sobre a relação entre a espécie e gravidade das
infracções e a insegurança efectiva dos cidadãos.
Por outro lado, esta insegurança efectiva teve
relação com imagens identificadoras de grupos
étnicos e culturais nos quais os noticiários, os
comentários, os murmúrios e a observação difusa mas
inquieta vão fixando a origem mais frequente do
recurso à violência.
Se esta circunstância prejudica políticas de
integração que sejam apegadas aos factos, também por
outro lado desvia as atenções de causas relacionadas
com as carências que não distinguem grupos
diferenciados pelas etnias e crenças, porque atingem
indiscriminadamente as populações envolvidas pelo
turbilhão do globalismo caótico, cujas ruínas se vão
somando, em várias latitudes, às ruínas causadas
pela natureza. Alguns comentadores ocidentais destes
factos verificaram e inquietaram-se com a
circunstância de se terem islamizado as desordens
graves de Outubro e Novembro de 2005.
Recordo o sociólogo Laurent Chambon, experiente do
multiculturalismo francês, que desenvolveu uma
atenta crítica no sentido de que, em lugar de a
França estar perante a revolta de "gangues de jovens
inspirados por muçulmanos radicais", deveriam antes
ser consideradas tais violências como manifestações
contra a precariedade da vida e da esperança da
juventude, sem diferença de origem ou filiação dos
envolvidos.
Parece de considerar o reparo, que encaminha para
uma visão mais rigorosa da complexidade crescente da
fragilizada relação das sociedades civis com a
ordem. Mas esse realismo também não pode implicar a
desatenção a componentes da revolta que são animados
pela cólera, movida pelo desafecto em relação ao
regime político, ou pela inspiração religiosa mal
orientada.
Também, avaliadas as explosões de violência que se
verificaram em regiões distanciadas, tomando por
exemplo o que se passou recentemente em Atenas, não
parece acertado imaginar que se trata apenas de os
bárbaros se levantarem contra a civilização
ocidental. O conflito étnico, cultural e religioso
está facilmente presente em parte dos participantes
na violência, os quais vivem de-sintegrados pela
condicionante originária da imigração descontrolada.
Mas o que seguramente aparece como abrangente de
toda essa juventude em cólera, envolvendo
descendentes das velhas famílias nacionais e filhos
das colónias interiores que as migrações originaram,
é a precariedade dos projectos de vida que atinge
toda a geração, por diferentes que sejam as
condições de partida. Precárias são as esperanças
dos que "nascem na classe errada e na etnia frágil",
precárias são as esperanças dos que nascem no
ambiente antes seguro da meritocracia.
É certo que os primeiros terão sempre maiores
dificuldades de verem uma luz ao fundo do túnel, mas
as classes médias, apoio histórico da vida habitual
e, portanto, da segurança, verificam que nem sequer
as qualificações universitárias asseguram uma
função, e menos uma carreira assente em moldes de
profissão liberal. A precariedade agudiza a falta de
confiança que marca a relação dos povos com os
órgãos do poder legal, e não a melhora com os
poderes em rede que se estruturam, sem regulação,
para além, e por vezes contra, das estruturas
políticas.
Em 2005, data de grave sinal de advertência que a
natureza das coisas enviou aos titulares das
responsabilidades governamentais, ainda não havia
notícia pública do desastre do sistema financeiro
mundial, das consequências na economia real, dos
efeitos que vão multiplicar-se na atitude das
populações atingidas, cujo projecto de vida se
desmorona. Por isso é certamente avisado não
imaginar que Paris e Atenas são acontecimentos que
apenas serão recordados pelas crónicas, porque a
doença do globalismo sem governança vai
provavelmente multiplicar as explosões sociais ao
longo da rede globalista.