PJ combate 'offshores' do sexo disponíveis na Net
Paula Carmo
Crime. Internet nos telemóveis potencia novo grau de
risco e massificação dos computadores para crianças
de tenra idade também eleva o perigo de crimes
sexuais iniciados através de contactos em 'chats'.
Quem o afirma é Camilo Oliveira, inspector-chefe da
Polícia Judiciária de Coimbra, especialista nesta
matéria
Denúncias de pais às autoridades crescem a ritmo
acelerado
Tinha tudo para ser uma pesquisa normal na Net. O
universitário de Coimbra procurava dados sobre
felinos para um trabalho para a faculdade. Através
dum motor de busca, surge o que procura, mas o que
imaginava encontrar estava longe de ter pormenores
sobre o mundo animal selvagem. Apresentou queixa.
Era um ficheiro de pornografia infantil.
"Há cada vez mais casos revelados à polícia
portuguesa de crimes sexuais com origem no espaço
cibernético, muitas das denúncias com menores são
feitas pelos pais", assume o inspector-chefe da
Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária, Camilo
Oliveira.
Seduzidos, menores e adultos iniciam relacionamentos
com situações banais, nomes inofensivos, às vezes
pueris. "Na Net, os 'amigos' são sempre simpáticos,
de bom trato", acrescentando que a massificação dos
computadores para crianças cada vez mais novas e a
Net nos telemóveis são potenciadores dos perigos "em
que os menores são vítimas e também autores de
crimes".
Tal como no mundo real, é infindável a lista de
crimes praticados, desde a pedopornografia à
difamação e injúria, do cyberbullying aos encontros
com "amigos" coleccionados em chats, abusos,
violações. "Há muitos casos, por exemplo, de
material de pornografia infantil que não está
alojado em Portugal, mas, antes, em países que não
criminalizam esta actividade", diz ao DN o
investigador dos crimes sexuais. É, pois, uma
espécie de offshore de sexo, redes fechadas e
ocultas, mas com vítimas de carne e osso.
"Há exemplos de pornografia infantil em que a foto
de uma criança é dividida e cada parte do retrato
está alojado num computador de país diferente e só
quando se faz o download desse material, pagando com
cartão de crédito, é que se reúne a imagem completa.
É um combate difícil, porque há sites com nomes
inofensivos", diz.
Só que a forma de obtenção dessas fotografias pode
acontecer em casa de muitas famílias portuguesas.
Alerta o especialista: "Os menores são manipulados,
ingénuos, entram no jogo com 'amigos', e quantas
vezes as suas fotos são usadas para outros fins."
Desde Abril de 2007, equipas da PJ já visitaram 42
escolas, graças a um projecto-piloto, em parceria
com a Direcção Regional de Educação do Centro, com
acções de formação de pais e professores sobre o
mundo online. As crianças reagem bem a estas
iniciativas e quase sempre contam histórias na
terceira pessoa. "Na Internet, todos mentem", diz o
especialista ao DN.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) já apontou
os crimes sexuais que se iniciam na Internet como
uma das prioridades. No ano passado, a PGR apontou
que só em Lisboa foram denunciados 67 casos de
crimes sexuais iniciados na Net, com a maioria dos
casos a envolver crianças. A tendência, esclarece a
PGR, é de subida do número de casos.