Os avaliadores internacionais não consideraram
nenhum dado estatístico que tenha escapado às
matrizes oficiais
Na semana passada, "a Deborah" veio a Lisboa
dizer-lhe bravo! Ele tratou-a com a intimidade que
as aspas sublinham, embora nunca a tenha visto na
vida. Deu um murro no púlpito, repetiu o bravo e
atirou-se à oposição. Depois despediu-se da ministra
da Educação com um pretérito circunstancial "foi um
prazer trabalhar consigo". Como no sambinha,
"morreu" na segunda-feira, atrapalhando o debate: a
oposição chamou-lhe mentiroso. Afinal, o relatório
não era da OCDE.
A cena macaca não surpreende. Estamos habituados.
Mas a macacada da cena merece comentário, até porque
a pagámos a bom preço. A coisa não é um relatório de
avaliação séria e credível. É um mero texto
opinativo, de estilo duvidoso. Pouco me importa o
currículo dos autores, quando as 93 páginas que
produziram são de uma pobreza que dói. Vejamos
porquê. As fontes documentais (anexo 2, pg. 89) são
todas do Ministério da Educação. Nem uma das
milhares de páginas que se escreveram, em oposição à
política do Governo, mereceu a atenção dos peritos
internacionais. A informação de enquadramento (pg.
13) é, pois então, um relatório "excelente" (sic,
pg. 13) preparado para os peritos independentes
pelo... Ministério da Educação e "um impressionante
conjunto de dados" (sic, pg. 13) fornecidos pelo...
Ministério da Educação. Os independentes
internacionais não se deixaram enquadrar por nenhum
dos livros publicados no período sobre as matérias
em análise, por nenhum documento produzido em sede
da Assembleia da República ou Conselho Nacional da
Educação, por exemplo, associações científicas,
profissionais ou sindicais, muito menos por dados
estatísticos que tenham escapado às matrizes
oficiais. Mas, para além de glosarem o "excelente"
relatório e cavalgarem o "impressionante conjunto de
dados", que mais fizeram os avaliadores
internacionais? Passaram seis dias (pg. 26) em
Portugal. Leram bem! Seis dias. E nesses seis dias
tiveram tempo para fazer 14 reuniões, ouvir 58
pessoas (pgs. 87 e 88) e viajar pelo país em visita
a 10 escolas. A resistência física dos avaliadores
fica demonstrada. Mas o carácter epidérmico dos
contactos a que procederam, também. A esmagadora
maioria das pessoas com que se encontraram são altos
quadros do Ministério da Educação. Dos quatro
académicos que constam da lista, independentemente
da respeitabilidade científica e profissional que
merecem, três, pelo menos, são normais apoiantes das
políticas do Governo e do partido político que o
suporta. Das câmaras municipais inquiridas, seis são
do PS. E na outra pontifica Valentim Loureiro,
publicamente conhecido pela vassalagem a Sócrates e
à ministra da Educação.
A qualidade dos instrumentos de avaliação depende
sempre de um conjunto vasto de variáveis. Mas há
regras mínimas que, quando não cumpridas, como no
caso vertente, abrem legítimo campo à suspeição de
pré-ordenação para servir determinados resultados.
Nesta avaliação, os factos demonstrados são
substituídos por indícios intuídos. Nesta avaliação
evocam-se com lisonja inusitada resultados que não
estão sustentados por testagem independente, nem
nada permite que se relacionem com as políticas que
foram seguidas. As regras básicas do aleatório para
as escolhas ou da representatividade para as
amostras foram, tão-só, ignoradas. E isto é grave!
Não é bravo!
Este escândalo já tem segunda edição em marcha, com
a anunciada entrega da avaliação dos cursos
profissionais das escolas públicas a outra turma de
independentes. Aí, como aqui, percebemos porquê: é
preciso branquear mais uma mistificação. Com alguns
dos muitos milhões que se inscreveram no Orçamento
do Estado para pagamento de serviços a consultores
externos, sempre se arranjará nova Deborah, que
grite ao vento do CCB outro bravo. Professor do
ensino superior