O Governo divulgou um pomposo documento intitulado
"Políticas de Valorização do Primeiro Ciclo do
Ensino Básico em Portugal", elaborado por cinco
peritos ditos independentes.
O perito português foi nomeado subinspector-geral da
Educação em 1.1.2007 e veio a ser nomeado presidente
do Conselho Científico para a Avaliação de
Professores em 1.11.2008. O CCAP existe na
dependência directa do membro do Governo responsável
pela área da educação (art.º 134 do DL 15/2007, de
19 de Janeiro). Parece pois tratar-se de um
independente que, à data do documento (Dezembro de
2008), estava na dependência directa do Governo!
Este verdadeiro oxímoro dialéctico não impediu o PS,
nem o Ministério da Educação, nem o
primeiro-ministro (este em plena Assembleia) de
garantirem a independência dos peritos.
Mas temos ainda a Deborah.
"A Deborah", assim ternurentamente tratada com a
familiaridade dos grandes pelo primeiro- -ministro,
como se viu na televisão, escreveu o prefácio. O PM
chegou a afirmar no Parlamento que o relatório tinha
sido assinado por ela.
A dama é chefe de divisão das Políticas de Educação
e Formação da OCDE desde meados de 2007. É uma
economista que não publicou até hoje, que se saiba,
uma única linha sobre questões de educação a não ser
o tal prefácio (ver a lista actualizada do que ela
escreveu em http/econpapers.repec. org/RAS/pro105.htm).
Pois a Deborah prestou-se a vir a Lisboa armada em
lavandisca promocional só para servir um objectivo
do Governo socialista: o de fazer passar a ideia de
que se tratava mesmo de um relatório da OCDE.
E diz muito ufana que a avaliação feita "segue de
perto a metodologia e abordagem que a OCDE tem
utilizado para avaliar as políticas educativas em
muitos países membros ao longo dos anos". Vejamos.
Na pág. 26 informa-se que a avaliação teve por base
um "relatório abrangente", preparado pelo próprio
ministério, descrevendo as medidas e fornecendo
muita informação e dados. "Foi estudado antes da
visita de seis dias a Portugal de uma equipa
internacional para entrevistar os principais actores
educativos e visitar um pequeno número de escolas".
De págs. 87 e 88 deduz-se que, em 14 reuniões, os
peritos se avistaram com 2 secretários de Estado, 4
elementos dos serviços centrais, 7 dos serviços
regionais, 3 do IGE, 4 peritos, 3 coordenadores dos
programas de formação contínua de professores, 3
elementos das associações profissionais de
professores, 5 coordenadores de escolas do primeiro
ciclo do meio urbano e outros 5 do meio rural, 3
membros da Confederação das Associações de Pais, 5
do Conselho das Escolas, 3 do Conselho Nacional de
Educação, 4 dos sindicatos e 7 representantes das
autoridades locais (Guimarães, Gondomar, Santo Tirso,
Amadora, Ourique, Lisboa e Portimão, sendo que "só"
seis destas sete autarquias são PS).
De derrear um cristão! Umas 57 pessoas, pelo menos,
mais as deslocações e os encontros do Minho ao
Algarve, 11 escolas, cinco direcções regionais, tudo
isto numa lufa-lufa, tudo isto numa maratona
esfalfante, tudo isto sem tempo para fazer chichi,
tudo isto em seis dias, seis, num inglês dos
intervenientes lusitanos, que se supõe mais ou menos
pedestremente técnico, e num português dos quatro
peritos estrangeiros, que não pode deixar de ser
ágil e escorreitíssimo, para eles terem conseguido
perceber e qualificar tanta coisa em tão pouco
tempo.
Talvez por isso, a adjectivação seja bastantemente
esbaforida: "ambição" e "rapidez" sem paralelo
internacional, "ampla melhoria", "excelente
relatório nacional" (o tal preparado pelo
ministério), "impressionante conjunto de dados",
"enorme sucesso" (p. 13), "visão política clara",
"elevado conhecimento estratégico", "resposta
corajosa e imaginativa" (p. 17), "desenvolvimentos
impressionantes" (p. 18), "excelente modelo de
formação contínua", "impressionante leque de
informação" (p. 19), "liderança decisiva e
visionária", "modelo admirável" (p. 44), "grande
sucesso", "professores bastante entusiasmados" (p.
47), coisas assim.
Se é assim que a OCDE trabalha, estamos bem aviados!
Resta saber quem é que intermediou toda esta batota
e quanto é que ela custou.