Há algum dinheiro. Mas está nos bolsos errados
Paulo Ferreira
Se o Governo está preocupado com o emprego, porque
não paga já os milhares de milhões que o Estado deve
às empresas?Falta dinheiro a circular na economia.
Os bancos, desconfiados, emprestam muito pouco uns
aos outros. Este pavor do risco que assaltou os
banqueiros - tarde de mais, diga-se, e mostrando que
a um excesso se responde muitas vezes com um excesso
de sinal contrário - fez também secar a torneira de
financiamentos às empresa e a particulares. O
dinheiro tornou-se um bem escasso e, quando há, é
"vendido" a preços mais altos, evidentes no aumento
dos spreads que os bancos estão a praticar.
O mesmo cliente particular, com o mesmo emprego e os
mesmos rendimentos, não consegue hoje negociar um
spread tão baixo como conseguia há um ano para a
compra de casa. Mais: para emprestar hoje, os bancos
exigem mais garantias, sendo muito mais
conservadores no peso do financiamento face ao valor
da casa.
Para as empresas, a situação é ainda mais difícil.
No caso das pessoas, ainda há empregos seguros e
rendimentos certos, a começar pelos funcionários
públicos, que nestas alturas sentem o seu lugar à
prova de crise, valor imenso que nunca é
contabilizado nas negociações salariais.
Com a generalidade das empresas, não é tão bem
assim. O encolhimento repentino da procura deixa-as
a braços com estruturas de custos difíceis de
suportar quando as vendas caem 20, 30, 40 ou mais
por cento. Veja-se, por exemplo, a quebra superior a
50 por cento nos automóveis vendidos em Portugal no
mês de Janeiro...
Para a banca, isto significa risco em cima do risco.
Tudo boas razões para apertar mais a torneira do
crédito.
Há de tudo nesta crise. Há empresas com produtos
obsoletos, em mercados em declínio, com reconversões
tecnológicas ou de gestão que ficaram por fazer e
que, com crise ou sem ela, estariam igualmente
condenadas. Para estas, a depressão só vem acelerar
a agonia.
Mas depois há as outras,
aquelas que são viáveis, altamente competitivas até,
mas que sofrem com a restrição financeira e o
súbito, mas passageiro, desaparecimento de uma parte
importante da procura. Estas são aquelas para quem é
vital o financiamento que permita atravessar o
deserto até ao regresso do crescimento.
O Governo, como se tem visto, vai tentando apagar
alguns fogos mais mediáticos. Mas, como é inevitável
em épocas de denso nevoeiro económico, isso não é
estratégia nem é eficaz. Olhe-se para o exemplo da
Qimonda e veja-se como, no espaço de meio ano,
passou de empresa-bandeira do Plano Tecnológico a
empresa em dificuldades que foi salva com a ajuda da
CGD para acabar à beira da falência um mês depois
deste salvamento que afinal não o era. Não há
certezas, como se vê, que durem mais do que meia
dúzia de dias.
No meio do sufoco financeiro, há, no entanto, cerca
de três mil milhões de euros que estão onde não
deviam. É dinheiro. São cerca de 1,75 por cento do
PIB que o Estado deve a empresas. Entre boas mas
ineficazes intenções de listas de credores e de
balcões únicos, aquele montante teima em não sair
dos bolsos fundos da administração pública para ir
para quem dele precisa mais do que nunca: as
empresas que venderam produtos e serviços ao Estado
e desesperam para receber o dinheiro desse
fornecimento.
Se o argumento do "Estado pessoa de bem", do "Estado
cumpridor" ou, mais simplesmente, do "Estado cobarde
que não cumpre a lei que impõe aos outros" nunca
comoveu os governantes, que seja agora o argumento
dos empregos em risco a resolver, de uma vez e com
eficácia, este cancro muito português do Estado que
se esquece de pagar.
Não se pode levar a sério nenhuma medida de apoio às
empresas anunciada pelo Governo enquanto o Estado
não pagar o que deve. Não dá direito a directos
regulares nas TV, mas só depende de si e resolve
muitos problemas de quebra da cadeia de pagamentos.