A fronteira entre a verdade e a mentira pode parecer
ténue, mas um Primeiro-ministro deve resistir à
tentação de pisar o risco. Quem se queixa de
campanhas negras e de insídias deve ser o primeiro a
não facilitar, porque as facilidades pagam-se caras.
O Primeiro-ministro diz-se vítima de uma campanha
negra na comunicação social, por causa de alegadas
irregularidades na legalização do Freeport em
Alcochete.
Não sei se há campanha negra ou não. Certamente, não
será na comunicação social, que se tem limitado a
publicar os dados recolhidos numa investigação
judicial em curso, dados que, até ver, não foram
desmentidos.
Mas é curioso que este Primeiro-ministro se queixe
da comunicação social, ele que, como ninguém, tem
gozado da benevolência e da apatia dos jornalistas.
Tem sido assim ao longo dos últimos três anos, sem
que se faça uma investigação séria aos gastos em
marketing e agências de comunicação que promovem os
diversos anúncios das políticas do Governo.
Tem sido assim quando a cara do Primeiro-ministro
aparece no material distribuído nas cerimónias de
inauguração de equipamentos públicos, como aconteceu
na semana passada.
E terá sido a contar com essa apatia que o
Primeiro-ministro achou que podia vender gato por
lebre e chamar a um estudo encomendado pelo Governo
a ex-funcionários da OCDE um estudo daquela
organização. A OCDE não gostou e fez questão de
repor a verdade.
A fronteira entre a verdade e a mentira pode parecer
ténue, mas um Primeiro-ministro deve resistir à
tentação de pisar o risco. Quem se queixa de
campanhas negras e de insídias deve ser o primeiro a
não facilitar, porque as facilidades pagam-se caras.
Melhor do que ninguém, o engenheiro Sócrates
sabê-lo-á, habituado como está a utilizar as
técnicas de propaganda para, subtilmente ou nem
tanto, veicular a sua propaganda e a do Governo. É
que, para quem tão violentamente se indigna com
aquilo a que chama insídia contra si, não deveria
ser irrelevante a autoria de um estudo que o seu
Governo encomendou.