As coisas estão a ficar demasiado feias José Manuel Fernandes
Quando ingleses se manifestam contra portugueses e
italianos e de Espanha regressam muitos que lá iam
buscar sustento, cuidado: o que separa a ordem do
caos e a civilização da barbárie é uma fronteira tão
frágil como uma fina camada de verniz
As histórias de vida que Ana Cristina Pereira nos
conta nas primeiras páginas desta edição são mais um
sinal de como o desemprego tem facetas de que nem
desconfiamos. São histórias de gente de Cinfães, de
famílias que ainda há meses viviam sem sobressaltos
porque quando não havia trabalho em Portugal, havia
em Espanha. Na construção civil.
Eram bons empregos? Eram empregos. Eram idas e
vindas em carrinhas cheias de gente, semanas a viver
sem condições, mas um rendimento certo ao fim do
mês. Agora esses migrantes de Cinfães estiveram
entre os primeiros que as empresas de construção em
Espanha dispensaram.
Só que a semana que passou trouxe, para outros
portugueses que procuraram no estrangeiro o seu
sustento, momentos de aflição. O pior dia tê-lo-ão
passado na sexta-feira, no Reino Unido, quando aí
rebentaram greves selvagens e tumultos espontâneos
contra companhias que tinham contratado mão-de-obra
portuguesa e italiana. Os manifestantes empunhavam
cartazes onde se repetia uma frase utilizada, num
discurso em 2007, por Gordon Brown, actual
primeiro-ministro britânico: "British jobs for
British workers", isto é, "empregos britânicos para
trabalhadores britânicos".
Na mesma altura em que os protestos se multiplicavam
pelo país, o mesmo Brown estava em Davos a discursar
contra o regresso do proteccionismo - a discursar e
a discursar bem. O problema é que a sua frase de
2007 já se tinha transformado no lema da
extrema-direita britânica, representada pelo British
National Party (BNP), um partido anti-imigração cujo
site na Internet ainda ontem incitava os
trabalhadores britânicos a reclamarem para si os
"empregos britânicos". Na BBC, Gordow Brown
esforçava-se por explicar o sentido das suas
palavras, mas a imprensa inglesa já anunciava que o
Reino Unido vai tentar modificar as leis europeias
que abrem o seu mercado de trabalho aos cidadãos da
União Europeia. A França, o país que se tornou
tristemente célebre pelas suas campanhas contra os
"canalizadores polacos", estaria disposta a alinhar;
a presidência da União, actualmente ocupada pela
República Checa, já se teria manifestado contra
qualquer mudança que fizesse regressar o
proteccionismo.
No fundo, a distância entre as aldeias de Cinfães e
a refinaria da Total que queria contratar
portugueses e italianos não é nenhuma - é a
distância que uma notícia leva a saltar fronteiras
que até já quase nem existem. Porque aquilo a que
estamos a assistir é ao desnorte de quem num dia
afirma que precisamos de mais globalização porque
precisamos de soluções globais e, no dia seguinte,
se confronta com eleitores que apenas querem saber
das suas oportunidades de emprego.
A civilização, escreveu o físico e romancista C. P.
Snow, "é tremendamente frágil". "Entre o que somos e
os horrores que fervilham nas entranhas da
humanidade não há quase separação, talvez exista
apenas uma camada de verniz" - e o verniz estala
muito, muito facilmente. Ora o polemista que
incendiou as gentes do seu tempo com o seu ensaio
sobre "as duas culturas" - a cultura científica e a
cultura literária - sabia do que falava, pois fora
testemunha do tempo das trevas no que hoje vemos
como um quase paraíso na Terra, a primeira metade do
século XX na Europa. E viu como o povo que se
julgava mais civilizado, o alemão, mergulhara na
barbárie nazi de livre vontade - exactamente: de
livre vontade.
Will Durant, filósofo americano que escreveu uma das
mais celebradas "História das Civilizações", notou
que estas começam por criar a ordem, florescem em
liberdade e, quando caem, quando morrem, fazem-no
criando o caos. E isso, por regra, sucede quando as
elites perdem as suas referências e actuam sem
limites morais (será que, no mundo das finanças e da
política, não temos assistido a demasiados casos
destes?), quando mesmo os intelectuais celebram o
relativismo e o hedonismo (não é essa a tendência
dominante?).
Ora, nestas alturas é muito fácil que a
desorientação se instale e os ouvidos se abram ao
populismo mais rasteiro. Querem um exemplo? Então
vejam estas declarações de um político britânico:
"Deitámos fora os nossos direitos quando nos
juntámos a essa prisão das nações que é a União
Europeia". Mais: "Só haverá empregos britânicos para
trabalhadores britânicos quando o Reino Unido voltar
a ser governado por britânicos".
Não foi nenhum extremista do BNP que as proferiu,
foi um ex-ministro de Sua Majestade, hoje deputado
eleito pelo Partido Trabalhista, o mesmo de Gordon
Brown: Frank Field.
Este fim-de-semana, no sábado e no domingo, Pacheco
Pereira e António Barreto escreveram neste jornal
dois textos onde se alertava para como o drama do
desemprego é corrosivo e como têm sido erradas
muitas políticas destinadas a combatê-lo. Nenhum
deles ganharia eleições repetindo aqueles
raciocínios. Mas, se os que querem ganhar eleições
não pararem para pensar e escutar - como
frequentemente sucede -, então o que hoje é uma
crise pode tornar-se numa grave depressão e esta,
pela sua própria natureza, pode degenerar no caos.
Há alturas em que História volta para trás muito
mais depressa do que andou para a frente.