Às dez semanas o embrião chupa no polegar, boceja
e talvez sinta dor, dizem médicos
Leonete Botelho
Fórum Ciência e Futuro arranca com a defesa
científica do "não" no referendo
Com os olhos postos no programa Prós e Contras que
ia para o ar horas depois, três médicos e uma
bióloga ensaiaram ontem, na Universidade Católica de
Lisboa, várias respostas aos argumentos do "sim".
"Às dez semanas, o embrião já chupa no dedo, boceja
e esconde-se atrás da mão", atirou logo à partida a
embriologista Teresa Almeida Santos. E é muito
provável até que, a partir das cinco semanas e meia,
seis semanas, já sinta dor, juntou no final a
especialista em Medicina Materno-Fetal Jerónima
Teixeira, professora no Imperial College, em
Londres.
Naquela que foi apresentada como a primeira
iniciativa do Fórum Ciência e Futuro - uma estrutura
de cientistas, académicos e profissionais que
promete trazer a luz da Ciência às questões sobre a
vida humana -, todos os intervenientes estavam
amplamente de acordo: a vida humana começa com a
fecundação do óvulo e cada ser humano é único e
irrepetível. Na plateia, cerca de 30 pessoas,
ligadas praticamente todas aos movimentos pelo
"não", não escondiam a sua preocupação em testar e
treinar respostas aos argumentos do "sim".
"Temos muita esperança em si para logo à noite",
dizia uma das assistentes, dirigindo-se a Jerónima
Teixeira, autora de um dos maiores estudos feitos
sobre a dor no feto e um dos trunfos que os
movimentos pelo "não" iam levar ao programa Prós e
Contras, algumas horas mais tarde. A especialista
acabara de apresentar as conclusões do trabalho que
a notabilizou, em que comprovou a existência de
percepção clínica de dor no feto.
O estudo, publicado na revista Lancet e em vários
jornais médicos, foi feito ao longo de sete anos em
fetos entre as 16 e as 34 semanas. Mas confrontada
com perguntas sobre se tais conclusões podem ser
estendidas a embriões mais pequenos, a cientista não
se fez rogada: "A dor pode estar presente a partir
das cinco semanas e meia, seis semanas, e não sou só
eu a dizê-lo", respondeu. Ela própria afirmou ter
nos seus estudos quatro casos, que servem apenas
como case report, de embriões entre as seis e as
oito semanas nos quais foi possível identificar
percepção da dor.
Então e às dez semanas, já existe um ser humano, com
sistema nervoso central (SNC) e córtex cerebral?
José Rueff Tavares, vice-reitor da Universidade Nova
de Lisboa, reconhece que o SNC só estará completo
algures pela 20ª semana de gestação. "Mas só então é
que há consciência, emoções, raciocínio e
inteligência? Isso são coisas que se formam pela
vida fora", responde. "Querer estribar na formação
completa do SNC as nossas qualidades superiores é um
sofisma", afirma.
Já a bióloga e embriologista Isaura Tavares prefere
o argumento a contrário, ou seja, o de que "não há
factos que demonstrem que o córtex cerebral não
funciona às dez semanas, ou antes". Já quanto ao
coração, garante que começa a bater mais ou menos ao
20º dia. "É um facto. Não se sabe é porquê", disse.