Público - 6 Fev 07

 

Às dez semanas o embrião chupa no polegar, boceja e talvez sinta dor, dizem médicos
Leonete Botelho

Fórum Ciência e Futuro arranca com a defesa científica do "não" no referendo

Com os olhos postos no programa Prós e Contras que ia para o ar horas depois, três médicos e uma bióloga ensaiaram ontem, na Universidade Católica de Lisboa, várias respostas aos argumentos do "sim". "Às dez semanas, o embrião já chupa no dedo, boceja e esconde-se atrás da mão", atirou logo à partida a embriologista Teresa Almeida Santos. E é muito provável até que, a partir das cinco semanas e meia, seis semanas, já sinta dor, juntou no final a especialista em Medicina Materno-Fetal Jerónima Teixeira, professora no Imperial College, em Londres.
Naquela que foi apresentada como a primeira iniciativa do Fórum Ciência e Futuro - uma estrutura de cientistas, académicos e profissionais que promete trazer a luz da Ciência às questões sobre a vida humana -, todos os intervenientes estavam amplamente de acordo: a vida humana começa com a fecundação do óvulo e cada ser humano é único e irrepetível. Na plateia, cerca de 30 pessoas, ligadas praticamente todas aos movimentos pelo "não", não escondiam a sua preocupação em testar e treinar respostas aos argumentos do "sim".
"Temos muita esperança em si para logo à noite", dizia uma das assistentes, dirigindo-se a Jerónima Teixeira, autora de um dos maiores estudos feitos sobre a dor no feto e um dos trunfos que os movimentos pelo "não" iam levar ao programa Prós e Contras, algumas horas mais tarde. A especialista acabara de apresentar as conclusões do trabalho que a notabilizou, em que comprovou a existência de percepção clínica de dor no feto.
O estudo, publicado na revista Lancet e em vários jornais médicos, foi feito ao longo de sete anos em fetos entre as 16 e as 34 semanas. Mas confrontada com perguntas sobre se tais conclusões podem ser estendidas a embriões mais pequenos, a cientista não se fez rogada: "A dor pode estar presente a partir das cinco semanas e meia, seis semanas, e não sou só eu a dizê-lo", respondeu. Ela própria afirmou ter nos seus estudos quatro casos, que servem apenas como case report, de embriões entre as seis e as oito semanas nos quais foi possível identificar percepção da dor.
Então e às dez semanas, já existe um ser humano, com sistema nervoso central (SNC) e córtex cerebral? José Rueff Tavares, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, reconhece que o SNC só estará completo algures pela 20ª semana de gestação. "Mas só então é que há consciência, emoções, raciocínio e inteligência? Isso são coisas que se formam pela vida fora", responde. "Querer estribar na formação completa do SNC as nossas qualidades superiores é um sofisma", afirma.
Já a bióloga e embriologista Isaura Tavares prefere o argumento a contrário, ou seja, o de que "não há factos que demonstrem que o córtex cerebral não funciona às dez semanas, ou antes". Já quanto ao coração, garante que começa a bater mais ou menos ao 20º dia. "É um facto. Não se sabe é porquê", disse.