Diário de Notícias - 5 Fev 05

A clivagem escondida das eleições
João César das Neves

O que está em causa nas próximas eleições? Muita gente diria que são os problemas orçamentais, económicos e sociais, Justiça, Educação, Saúde, Segurança Social, etc. Mas se olharmos bem, as alternativas em presença nesses campos não são assim tão diferentes. Os grandes partidos centrais, com mais de 80% do sufrágio, dizem quase o mesmo. Esforçam-se por encontrar diferenças em detalhes e personalidades, mas acabam por igualar o discurso para agradar a todos. Propostas originais só nos pequenos grupos, mas a novidade aí vem sobretudo da irresponsabilidade. Uma vez no Governo, a realidade anula os sonhos e impõe a dureza da vida.

Isto é um bom sinal. Vivemos numa sociedade pacificada, sem clivagens básicas. Os nossos pais e avós discutiam sobre monarquia, democracia, capitalismo, sindicatos, voto das mulheres ou nível das pensões. Hoje temos adquiridas essas ideias essenciais. Ainda há absolutistas, racistas, machistas e comunistas, mas são minorias folclóricas. As opções fundamentais estão feitas. Temos problemas graves, mas poucas dúvidas no diagnóstico; é só uma questão de coragem na terapêutica.

Será que podemos então dizer que se vive a paz ideológica? Não. As questões fracturantes existem, mas estão noutras áreas. As recentes eleições americanas mostraram bem o que outros países também confirmam as "guerras culturais" são a grande batalha do nosso tempo. O que separa hoje as pessoas não é já o regime político, sistema económico ou estrutura social. A verdadeira luta doutrinal trava-se na definição da família e do direito à vida. A contestação de valores seculares situa-se agora nos elementos mais nucleares da humanidade. Antes era a cor da pele que definia os direitos humanos; hoje a vida do embrião depende de ser ou não desejado pela mãe. Antigamente a família onde se nascia marcava para sempre a sorte; hoje quer-se que a família seja fixada pelos caprichos sexuais mais variados.

Aborto, eutanásia, divórcio, homossexualidade, droga são os temas de debates acesos e opiniões opostas. O sistema de partidos convive mal com isto, porque foi concebido para as questões anteriores. É evidente o incómodo que esses temas levantam aos dirigentes e as fracturas internas que provocam.

Este debate verifica-se em todo o mundo desenvolvido. Mas a forma de lidar com ele é muito diferente. Em alguns países, como os EUA ou Portugal, a luta fervilha e o resultado parece incerto. Noutros, pelo contrário, existe um aparente consenso e a sociedade assume uma paz ilusória. Inglaterra, Holanda e agora Espanha, entre outros, adoptaram uma atitude permissiva e liberal, despenalizando o aborto e fechando os olhos à eutanásia, às uniões de homossexuais, etc. Porquê esta diferença?

O paralelo com o último grande embate ideológico da História ajuda a compreender. No século XX o que dividiu o mundo foi a proposta do novo modelo comunista. Enquanto a maioria dos países debatia a questão, alguns (URSS, China, Cuba) abraçaram entusiasticamente o novo sistema. Sentiam-se inovadores, apresentavam-se como progressivos e vanguardistas, desprezavam a prudência dos de mais como obsoleta e reaccionária. Hoje sabemos que eles não tinham razão e as novidades eram criminosamente deficientes. Os problemas eram muito mais complexos do que pensavam as ideologias revolucionárias.

O que se verifica no campo dos valores é parecido. Alguns países europeus sentem-se modernos e avançados ao substituir o debate por soluções laxistas e permissivas. Acham que estão a construir a família do futuro ao desprezar séculos de valores e tradições. No fundo, fizeram a mesma opção que a URSS em 1917. Não resolvem o problema, limitam-se a ceder a modas intelectuais que escamoteiam a gravidade da questão. A liberdade de abortar e a diversificação do casamento parece hoje tão moderna como há umas décadas pareceu a sociedade sem classes. Aliás, os que hoje atacam a família e a vida são exactamente os mesmos que há uns anos defendiam a ditadura do proletariado.

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