Diário de Notícias - 28 Fev 04

Morrer com dignidade
Helena Sacadura Cabral

Por princípio não faço parte de movimentos políticos. Limito-me ao exercício dos meus direitos cívicos e ao cumprimento dos respectivos deveres. Como, aliás, muitos portugueses. Mas tenho obrigações de cidadania que não declino e que podem levar-me a integrar grupos cujas causas considere justas.

Colega que muito respeito e que, no ecrã, se tem batido por divulgar o que os clínicos, no silêncio dos seus gabinetes, fazem por todos nós, pediu o meu apoio para um projecto que merece atenção. Trata-se do Movimento de Cidadãos pró-Cuidados Paliativos, cuja petição com 26 mil assinaturas, obtidas em apenas três semanas, foi entregue na Assembleia da República, no dia 26 de Fevereiro.

Um simples cálculo, permite inferir desta adesão que, pelo menos, um em cada 400 portugueses, já ouviu falar deste assunto. A petição apresentada visa dois objectivos fundamentais:

«Reclamar o direito do acesso de todos os cidadãos aos cuidados paliativos.»

«Requerer que os cuidados paliativos sejam confirmados na Constituição da República Portuguesa e incluídos entre os cuidados que incumbe ao Estado garantir, para assegurar o direito à protecção da saúde de todos nós, conforme o cap. II, art.º 64, ponto 3.»

Este tipo de cuidados pretende responder aos problemas que decorrem da doença avançada, prolongada, incurável e progressiva e tenta prevenir o sofrimento que ela gera, proporcionando a máxima qualidade de vida aos doentes e às famílias. Podem durar semanas, meses, ou, muito raramente anos, e prolongam-se pelo período do luto.

Só quem, como eu, já acompanhou doentes em fase terminal do seu martírio, poderá avaliar o choque e o tremendo esforço pessoal que é pedido não só a quem sofre como aos familiares e amigos próximos.

A minha mãe morreu de cancro, há muitos anos. Ainda hoje tenho pesadelos ligados ao seu sofrimento, apesar de ter a certeza que a família lhe dispensou toda a atenção e carinho. Mas se tal não tivesse sido possível, como seria?

Os cuidados paliativos não são cuidados de saúde menores; não se restringem aos moribundos nos últimos dias de vida; não são e não devem ser encarados como intervenção caritativa bem intencionada. Pela especificidade e multidisciplinaridade que envolvem, são diferentes dos cuidados continuados. Não são dispendiosos, não encarecem os gastos dos sistemas de saúde e podem, até, reduzi-los, face a uma melhor racionalização dos meios utilizados.

Tais cuidados, centrando-se na importância da pessoa, apesar de doente, vulnerável e limitada, ajudam a aceitar a morte como uma etapa natural da vida. Que, até ao fim, deve ser dignificada.

A não cura era - e nalguns casos ainda é - encarada como uma derrota, uma frustração, uma área de não investimento. Que conduzia doentes incuráveis à tragédia de se verem relegados ao «abandono encapotado». O movimento já tem um contacto electrónico: movepaliativos@zmail.pt

Atrevo-me a crer que esta crónica poderá suscitar o interesse e o envolvimento de cidadãos conscientes, no apoio a uma iniciativa que pugna pelo direito a uma morte com dignidade.

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