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Diário de Notícias - 19 Fev 03
Mudar de vida
Francisco Sarsfield Cabral
A situação a que chegámos, com empresas a fecharem todas as semanas, era
previsível há muito. Numa fase de estagnação económica e de aperto orçamental, a
crise teria de acontecer. A qualidade do emprego é fraquíssima
entre nós. Mais tarde ou mais cedo as empresas de mão-de-obra barata teriam de
encerrar, perante a concorrência da mão-de-obra muito mais barata de outras
paragens. Mas o desemprego de licenciados e quadros (porque no Estado começa
agora a entrar menos gente...) mostra que muitas empresas ainda não abandonaram
a aposta suicida no trabalho barato.
Ou seja, faltam novas empresas, menos dependentes do preço do trabalho para
competirem. O nosso problema não são as empresas que vão à falência e as que se
vão embora (algumas delas portuguesas, que se deslocalizam e fazem bem). O drama
é que não aparecem novos investimentos empresariais. É gritante a falta de
investimento estrangeiro de qualidade. Vamos, assim, passar um mau bocado, por
muito que o Governo tome, acertadamente, medidas para minorar os efeitos sociais
do desemprego. Resta a esperança de que este embate com a realidade sirva para
mudarmos de vida. Sirva de incentivo para reformar o Estado e a burocracia, mãe
da corrupção e principal obstáculo ao investimento. E sirva para as pessoas
tomarem consciência de que temos de trabalhar, não exactamente mais, mas de
outra maneira. A competição com empresas e profissionais estrangeiros aumenta
com a globalização e o euro. Esse confronto ajudará a alterar a nossa
mentalidade e a ganhar hábitos de organização. À custa, com certeza, de mais
falências e mais desemprego. Não será um parto sem dor, mas os portugueses não
são mais burros do que os outros. Têm é de mudar de vida.

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