Público - 11 Fev 03

"Pombas" e "Falcões"
Por GRAÇA FRANCO

Ainda me lembro. Era Janeiro. Estava frio. Tinha acabado de adormecer, preocupada. Daí a dois dias deveria embarcar para os Estados Unidos, a convite do German Marshall Fund, para um programa que só terminaria mês e meio depois. Falava-se da iminência de uma guerra e de ameaças terroristas contra os aviões civis americanos no caso de confronto. Uma ameaça vista como provável e credível, embora a uma dúzia de anos de distância do 11 de Setembro. O sono acabou por durar pouco. A guerra começou antes do previsto, nessa mesma noite!

Nos Estados Unidos, era a hora dos telejornais e os vários correspondentes das principais cadeias relatavam o início da operação num tom quase surreal. Jan Krauze, correspondente de "Le Monde" em Washington, recordava no jornal do dia seguinte, o "êxtase" de John Hollimann da CNN ao afirmar "parece um fogo-de-artifício do 4 de Julho. Ouahh, esta foi grande. Acabou com o centro de transmissões!"

Por cá, a RTP seguia a par e passo o relato da CNN. Voltei para o PÚBLICO. Era preciso antecipar os efeitos económicos da guerra. O resto dessa primeira noite perdia-a a contabilizar o impacte da queda das bolsas, da subida dos preços do petróleo, do galope do ouro, da instabilidade do dólar e dos riscos de inflação. Hoje, a contabilidade seria ainda pior!

Na vertigem dos números, acho mesmo que nem tive tempo para pensar no que significava a guerra em si... nas mães reais que, abraçadas aos filhos reais, podiam já não acordar no dia seguinte. Naquelas primeiras vítimas "colaterais" que nunca chegariam a constar da fria e arrepiante estatística final: 150 mil soldados iraquianos mortos, 115 norte-americanos, 40 dos países árabes aliados, 36 britânicos e dois franceses. Do lado de lá mais de meio milhão de vitimas, do lado de cá muito menos do que os mortos das estradas nesse ano.

No dia seguinte, a guerra fazia manchete sem que se contestasse a legitimidade da acção: tratava-se de libertar um pequeno país invadido por um poderoso ditador vizinho, cuja posse de um temível arsenal de armas proibidas constituía uma ameaça indirecta a todo o mundo livre. A Europa preparava-se para falar, por uma vez, a uma só voz e Mitterrand tinha com ele a aprovação de 82 por cento dos franceses. Sintomático!

Saddam era de novo o agressor, mas, ao contrário do que acontecera dez anos antes no ataque ao Irão, não iria contar com a cumplicidade ocidental. A 28 de Maio, numa reunião da Liga Árabe, já tinha lembrado que, por cada dólar a menos no preço do barril, "o Iraque perdia por ano mil milhões de dólares!". A 2 de Outubro, decidiu acabar com os prejuízos invadindo o concorrente. A Arábia Saudita podia ser o freguês a seguir... Entre "pombas" contrariadas e "falcões" assumidos, a guerra apresentava-se como o mal menor.

A 19, desembarquei em Washington. Foi aí que assisti às primeiras megamanifestações contra a guerra, onde proliferavam os cartazes com a provocação: "O que seria do Kuwait se produzisse bróculos?" Alusão clara aos interesses do Presidente na indústria dos petróleos e ao seu ódio às couves. Sentia o coração pró-"manif" e a razão pró-Bush.

Passei os restantes 42 dias de guerra igualmente dividida, enquanto assistia, em solo americano, ao galope de popularidade do Presidente. A cada dia, parecia mais difícil encontrar vozes contra a intervenção. Sobretudo fora dos grandes centros, onde se instalam as poderosas burocracias das grandes ONG alternativas.

Nem nas comunidades pobres de Miami, nem entre os influentes afro-americanos de Little Rock (no estado governado por Bill Clinton), era fácil encontrar críticas. Em Tucson, a pérola da tecnologia de ponta, lembro-me de ver edifícios inteiros embrulhados nos laços que simbolizavam o apoio à guerra. Idem para a comunidade maioritariamente hispânica de S. Diego, ou para a intelectualidade universitária da gelada e liberal Minneapolis. Na ronda, apercebi-me de uma pluralidade de "países" dentro da grande potência, curiosamente unidos na federação pró-guerra.

Soube-se, mais tarde, que a máquina de desinformação, manipulação e propaganda, gerida com mestria pela retaguarda de Powel e acriticamente repetida pelos "media" fascinados pela guerra " limpa" foi decisiva para cimentar a unanimidade, que na Europa, aqui e ali, começava a ser quebrada. Mil vezes me escandalizei com o relato empenhado dos meus colegas americanos. Lembro a abertura de um telejornal em que o "pivot" comentava sem pudor que "a honra" do início do ataque terrestre coubera a não sei já que companhia...

Estava em Nova Iorque quando foi anunciado o início desse ataque, onde se previam dezenas de milhares de baixas aliadas (os sacos para os embalar já estavam comprados!). Deixei o hotel e percorri a Lexington Avenue e as ruas circundantes de Manhattan, em busca da opinião popular. Eram todas do tipo: "Achamos bem! É tempo de acabar com aquilo." E os militares que vão morrer? Repetia na minha angústia europeia: "Foram eles que escolheram ser militares. Era um risco, e tem de ser!" Mandei os depoimentos para Lisboa e ainda ouvi uma boca: "Estás muito pró-americana!" Como se tivesse sido eu a responder...

O ataque durou 72 horas e quase não houve baixas ocidentais. A 28 de Fevereiro, já as manchetes eram: Kuwait libertado! Cheguei a Portugal, a 3 de Março, dia em que Tarek Aziz aceitou as condições de rendição impostas pela ONU. Na altura, ficava por perceber por que é que o temível ditador iria continuar a oprimir o desgraçado povo. Bush deixou o trabalho a meio! Explicou depois que a decisão de não avançar até Bagdad se ficara a dever aos pedidos da Arábia Saudita, para que não se permitisse que xiitas e curdos lançassem o caos no país, com o risco de reforço do radicalismo antiocidental no Irão. Afinal, doze anos depois, ainda ninguém percebe a opção e o homem lá continua, pendendo sobre ele as mesmas suspeitas.

Querem agora, finalmente, acabar a guerra. Mas desta vez não há invasão; desta vez não há, pelo menos para já, mandato da ONU; desta vez, não há unanimidade na Europa; desta vez, repete-se apenas a mesma ameaça de guerra química (e só é diferente o medo que ela nos suscita!).

Tudo isto faz com que, desta vez, a guerra, como tem insistido João Paulo II, não deva ser vista como "uma fatalidade", até porque qualquer guerra "é sempre uma derrota para a humanidade". E tal como ele aconselha a todos os jornalistas e homens de boa vontade, vai ser mesmo preciso resistir à desinformação para evitar que nos tornemos cúmplices.

WB00789_1.gif (161 bytes)