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Público - 14 Fev 03
A Fuga das Multinacionais - Um Desastre Ou Um Bom Indício?
Por CARLOS ROMERO
A chamada "deslocalização" é uma "praga" que se tem vindo a afirmar no tecido
industrial português nos últimos tempos. Basicamente, consiste em transferir
para outras paragens, onde se paguem salários mais baixos, unidades fabris
inteiras ou determinadas fases da produção. As razões que determinam as mudanças
são sempre de ordem económica, a que, por vezes, se somam factores sociais,
culturais, geográficos e legislativos que facilitam a obtenção de maiores lucros
por parte dos grupos empresariais.
À deslocalização fabril andam quase sempre associadas multinacionais, por serem,
por definição, grupos mais sensíveis à concorrência global e muito mais atentos
às oportunidades de engordar resultados de exploração, sem quaisquer
constrangimentos geográficos. Praticamente todos os casos que, nos últimos
meses, mexeram com a estabilidade dos postos de trabalho em Portugal,
relacionam-se com multinacionais dos chamados sectores tradicionais - têxteis,
calçado, confecção.
Entre os aspectos mais negativos associados ao "levantamento da tenda" por parte
das multinacionais está, obviamente, o desemprego, embora se deva referir que,
quase sempre, os grupos fazem questão de pagar escrupulosamente as indemnizações
devidas ao pessoal "liberto". No caso da multinacional de calçado Clarks, em
Castelo de Paiva, um factor negativo suplementar prende-se com a excessiva
dependência do emprego garantido pela multinacional (cerca de metade do emprego
industrial concelhio). Há ainda o desrespeito por compromissos assumidos com as
autoridades locais ou nacionais (foi, também, o caso da Clarks), o que incomoda
toda a gente, Jorge Sampaio incluído.
O fenómeno das deslocalizações fabris não é protagonizado apenas por
multinacionais. Algumas empresas portuguesas, de sectores como o calçado ou as
confecções (é o caso da Maconde, por exemplo), já descobriram há bastante tempo
as vantagens da deslocalização de partes do processo produtivo para países de
mão-de-obra mais barata, como a Índia ou a Roménia.
Enfim, Portugal tende a deixar de ser um bom sítio para explorar legiões de
trabalhadores pagos ao preço da chuva. E isso, defendem muitos, é mais um bom
indício do que uma catástrofe. Apesar de todos os dramas associados aos
encerramentos.

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